Voando Reto num Muro de Tijolos

Para Nathália Pandeló Corrêa

Suburbiapunk

Minha vida sulamericana não me deixa esquecer: somos genocídios, somos escravos, somos todos os tipos de golpes. Finja que tá tudo bem. Finja que tá tudo normal pois minha vida sulamericana não me deixa esquecer: somos genocidas, somos senhores, somos todos os tipos de armas. Finja que tá tudo bem. Finja que tá tudo normal pois minha vida sulamericana não me deixa esquecer.

Sala

Sentamos à mesa na casa dos seus pais com seus parentes e alguns que não sabíamos quem eram. Diziam coisas, riam baixo e era dezembro. Sobrava o nosso silêncio que os sustentava.

Entre tudo, meus olhos esbarraram sem querer nos seus, que vestiam seu melhor sorriso. Talvez como no dia em que éramos clandestinos naquele elevador. Quando disse, com seus olhos grandes, que queria saber como a desenharia se fosse um personagem. Respondi que não tínhamos tempo. Você falou dos meses, planejou anos, viagens. Disse do futuro e do rumo que tomaríamos. Todas as dores de cabeça, todas as noites sem sono, todas as estrelas maiores que nossos problemas.

E hoje contemplamos o fim do universo. Nosso último jantar, nosso último compromisso forçado, com sorrisos enlatados, para nos olharmos de novo como da primeira vez. Aos poucos a nossa carne vai se soltar dos ossos, abrir caminho, deixar correr veias, nervos, todos os mistérios e segredos.

Das paredes, onde seremos atirados pela explosão, veremos pássaros voando no céu e um momento perdido. Colocarei as crianças para dormir, prepararei o jantar, transarei com minha esposa, lembrarei do olhar perdido, fechado entre o elevador e a vontade de voltar. Do tempo que éramos clandestinos, contra as paredes, como tudo que não falamos por medo.

Anti-valsa

Pessoas vão, pessoas vêm, pessoas vão, pessoas vêm. Desenhando com velas um triângulo no chão, com dedos mágicos. Anti-valsa ritual, num ritual na anti-valsa.

Pessoas vão, pessoas vêm, pessoas vão, pessoas vêm. Sob frios fantasmas, a saudade habita em fotos nas mãos na anti-valsa ritual, num ritual na anti-valsa.

Pessoas vão, pessoas vêm, pessoas vão, pessoas vêm. Voando reto como besouros num muro de tijolos. Voando reto como besouros num muro de tijolos. Num muro de tijolos na anti-valsa ritual, num ritual na anti-valsa.

Pessoas vão, pessoas vêm, pessoas vão, pessoas vêm numa anti-valsa ritual.

Quase Invisível Garota Chinesa

Quase invisível garota chinesa chora nos trilhos, seu rosto evapora. A quase invisível garota chinesa, tão longe de casa. Ninguém olha pra quase invisível garota chinesa. Desonra da família, seus braços são sombras da quase invisível garota chinesa. Se mistura ao trem, a multidão é a quase invisível garota chinesa entre a 57 e a Rockfeller numa segunda de manhã.

Poema de Pista

Vem. Surdo marcando nosso carrossel na levada grave da ilusão e gira, gira, gira e vem.

Vem. Cuíca chora sem notar, cavaco cortando o céu em dois em seu sorriso bom. Não vá. Vem.

Vem. Risos calados nessa pista em vão. São só seus. Vem, só vem. Que nosso corpo se perde em qualquer dança, que dos meus pés escondo pouco samba exceto o que o nosso corpo diz.

Vem. Tamborim marca o tempo, as mãos pousam no seu corpo. Sinto você chegar, levar e ver. Vem.

Vem. Num arranjo que já não fazem mais. Sinto desejo de muito tempo, para perder na vida, alma, no Sol. Vem.

Vem. Risos calados nessa pista em vão. São só seus. Vem, só vem.

Dois Quartos

Invisível aos seus olhos, busco seu corpo sem notar no escuro entre dois quartos. Chaves postas ao entrar.

Não sei meu nome, não sei meu nome, não sei meu nome. Nem sei se o que eu quero está aqui. O meu nome, não sei meu nome, não sei meu nome. Nem sei se o que eu quero está aqui.

Invisível aos seus olhos, busco seu corpo sem notar no escuro entre dois quartos. Chaves postas ao entrar.

Não sei meu nome, não sei meu nome, não sei meu nome. Nem sei se o que eu quero está aqui. O meu nome, não sei meu nome, não sei meu nome. Nem sei se o que eu quero está aqui.

E todos dançam, todos dançam. No escuro entre dois quartos, todos dançam. No escuro entre dois quartos, todos dançam.

Todos dançam. No escuro entre dois quartros. No escuro, avanço. Entre luzes, cometas, estrelas, garrafas. Nosso Chão. Fingindo gostar no escuro.

Edifício Coral

As paredes falam, as paredes fofocam, as paredes transam, as paredes tramam. As paredes lisas de um prédio. As paredes se abrem. As paredes do seu ouvido sussurram até você cair no sono.

Longe

Era a primeira vez que aceitava, de verdade, o “deixa levar” cantado em coro pelos amigos toda vez que inventava desculpas para ficar em casa. Dizia que estava velho para essas coisas, que não ia saber o que falar, que não acompanhava mais. Sempre era isso: “deixa levar”.

No fundo, achava que nem ao grupo de amigos pertencia mais. Aos 28, se arrependia de todos os vinte e poucos anos que não havia vivido. Foi quando sentiu. A cintura dela vibrava. Vibrava. Vibrava no mesmo ritmo da música.

A cada nota da banda, o corpo dela mudava. Sentia os braços o envolver como o acordeom, nos passos pesados das notas do piano, arrepiado como se os dedos dela fossem pequenos arcos de violino em concerto.

Pensou que aquelas notas beirando sua pele o levariam até o fim do mundo. Acordaria no outro dia, roupas num chão qualquer. Mão ainda no corpo dela, rindo dos gemidos abafados na noite anterior por medo de acordar os vizinhos.

Era outono. Era a quinta tentativa. No mesmo lugar. Com as mesmas músicas. Mas só agora aquele fantasma nasceu.

Um casal de amigos insistia desde o inverno passado em tirá-lo do apartamento com uma janela sem vista. De tirá-lo dos discos do passado, de livros medíocres, de uma depressão persistente, de um relacionamento morto por causas naturais para uma pequena temporada portenha.

Naqueles dias de insistência, sentia que a solidão ia chegar por uma janela junto da névoa da manhã. Seria como uma alma esquelética, com trapos e longas unhas, que toda vez que encostasse nele ia fazer crescer um centímetro. Um centímetro, um centímetro, um centímetro… E com o passar das décadas e séculos que a medicina moderna permitiria, já ocupando quartos e quartos da casa, iria bloquear de vez a luz.

Seria quando a solidão voltaria ainda esquelética e de unhas grandes, mas vestiria sua capa e capuz negro o levaria para o campo dos solitários. Talvez ela também falasse “deixa levar”.

Mas levou.

E levava os dedos da cintura até o banco do carro. Ela no volante discutindo amenidades, trânsito, parando para comprar vinho em uma loja de conveniência, comparando qual álbum do Bruce Springsteen era o melhor, se ele era tão bom quanto o Dylan. tinha deixado levar. “Darklands” e “Adam raised a cain” no som do carro tão diferentes do som que dançaram e que ainda ecoava em arrepios na pele dele.

Ele buscava, nas linhas do corpo dela, fossem as tatuagens, os caminhos por dentro das roupas… Buscava entender o que tanto o excitava. Ela não tinha nada de diferente. Tinha o mesmo brilho na pele que cria uma faixa de luz enquanto o carro corre na estrada. Tem o mesmo perfume que caminha logo ao lado dela como uma aura. Tem os mesmos peitos, a mesma bunda, a mesma coxa. Os mesmos olhos, a mesma boca… Tenta fugir dos pensamentos, que grudavam nela, dizendo que o Springsteen ainda precisava fazer uma “Simple twist of fate” ou alguma outra faixa, daquelas mais desconhecidas, selecionadas com atenção para parecer culto. Ela riu. Cantarolou com o som do carro, enquanto o Boss cantava que a avenida estava viva e que esperava o fantasma de Tom Joad na luz da fogueira.

Era madrugada, estava em outro país e o celular – há muito sem sinal – perdeu os últimos momentos de bateria. As casas iam rareando ao lado do carro, o aeroporto era muito passado e suas luzes já não cortavam os céus. O vento fazia o rio avançar forte, suas ondas repetindo “deixa levar” contra as pedras na beira da estrada.

Na luz cheia de poeira das ruas, o rosto dela lembrava a solidão entre a névoa. Contou para ela: uma vez sonhou com um amigo, amigo dos tempos de escola que estava na cidade vindo do sul junto do frio.

Haviam fumado uns cigarros, bebido algumas bebidas, falado algumas falações quando decidiram invadir a antiga estação de trens – a que foi tombada pelo patrimônio histórico e esperava há algumas décadas pela reforma prometida.

Os dois pularam o muro, começaram a vagar pelos trilhos quebrados falando sobre trens e viagens, sobre as pessoas do tempo de escola, tudo que não eram e sonhavam ter sido. Foi quando surgiram os primeiros manifestantes. Camisas amarradas no rostos, gritando palavras de protesto. Do outro lado, a polícia batia seus cassetetes nos escudos, como animais chamando pra briga.

Ela interrompeu o relato, abaixando o volume do carro, querendo entender melhor quem eram as pessoas na estação. Era a primeira vez em muito tempo que alguém abaixava o volume da música para o ouvir.

Era uma reintegração de posse. Os camisetas amarradas estavam morando ali há algum tempo e a polícia veio cumprir alguma ordem judicial. Naquela noite, noite de bebedeira, longe dos olhos da imprensa.

E ele e o amigo do sul foram presos. A prisão ficava na beira de um rio, como aquele rio que ainda batia forte com as ondas, agora as do mar entrando com o vento do caminho aberto aos continentes.

Ventava muito no sonho e a prisão balançava ao vento como uma pipa. Eles se agarravam ao chão, mas o chão era longe demais. Foi quando acordou. Disse que aquele sonho era a lembrança mais viva que tinha até aquele dia. E era longe.

Ela morava numa vila de casas, na verdade quase chalés com varandas, construídas na subida de um morro nos anos 60 para ser uma espécie de sociedade alternativa hippie. Fundada pela paz e amor, “foi como um casamento que a paixão acaba em alguns anos”, ela disse.

Os hippies não resistiram aos anos 70 e ao trabalho em falta na região durante o inverno. Daquele tempo, só alguns velhos que ainda viviam nos anos de ouro da juventude; as antigas árvores da mata ainda original e as baleias que faziam seus cantos por aqueles mares rumo ao gelo do sul.

Não se ouvia nada, nem se via luzes até a penúltima casa, que era onde ela vivia. Os faróis cortavam o chão com dois fachos de luz passando pelos paralelepípedos, passando pelas árvores, até a escada da entrada onde estava sentado – alerta – um enorme e gordo cachorro molhado e sujo de lama. Perguntou se era dela mas Hugo era de todos, dizia ela ao descer do carro, batendo palmas para a luz da varanda acender como magia.

Aquele era só um cão de rua como vários que vagavam ali pela vila, vindos da mata atrás. Uns davam comida, outros banho, cuidavam de pulgas e carrapatos. Disse que até bancaram os cuidados de um que apareceu com um ferimento feio na cabeça.

E ela estava ali fazendo com Hugo a parte dela, pelo visto. Passava a mão devagar pela cabeça do cachorro que fechava os olhos fazendo um barulho baixo de prazer. Ele deitava para que fizesse carinho. Disse que Hugo vinha toda noite, pedia uns afagos, ia embora. Quando ela não está, ele espera. Diz que é mais fiel e constante que família. Hugo derretia no chão, olhos fechados, quase dormindo. Ela buscou um pano, falou para ele deitar. Ele deitou.

Os dois entraram na casa. Ela foi lavar a mão, ele abriu o vinho. Beberam ao som de músicas, todas escolhidas a dedo para impressionar o visitante. Falaram sobre a vida, recitaram poemas péssimos, filosofaram sobre Deus e sentidos perdidos nas músicas que ouviam Ela falava, ria, gesticulava, enquanto a imaginação dele discorria laudas e laudas dentro de sua cabeça. Da vontade de sentir aqueles lábios de verdade e não daquele jeito apressado, desajeitado, como se beijaram na milonga.

Depois, roçar seu pescoço com sua boca. Descendo até os peitos, chupando cada um deles com calma, sentindo a cintura dela vibrando como as cordas de um cello anunciando um tema de Gardel.

Era uma vontade selvagem que tomava a mente, rosto, os braços, as mãos, enchendo todo seu corpo de pêlos. Desejo que derretia seus músculos em novas formas, fazendo suas orelhas caírem, seu nariz gelar. Fazendo ir ao chão, patas abertas, corpo nu, entregue, pedindo o feitiço das mãos dela.

São elas que aquecem o corpo, numa pontada de prazer que percorre das patas até as orelhas, mexendo o corpo inteiro. A cauda, recém adquirida, batia forte em todas as direções. A respiração empolgada, os olhos brilhantes de alegria se fecham de prazer.

Ele vai para longe, mais longe ainda, para um tempo onde tudo é diferente, antes de remédios, categorias estranhas do xvideos, livros de auto-ajuda. Um tempo, onde o prazer da mãos dela acariciando a barriga, lentamente, eram os dedos longos de outro corpo. Dedos brincando dentro de sua calça até ele gozar em um banheiro de shopping.

Lambeu as mãos, os braços, o rosto dela. Se pudesse, lamberia todo o corpo muitas e muitas vezes. Seus olhos brilhavam de encantamento e prazer. Não queria nunca sair de lá, se saísse, iria voltar e voltar novamente.

Queria mais dela, mais uma vez, toda vez. A luz batia no rosto dela como na rua, mas agora não era a solidão entre a névoa, mas um sorriso. O mesmo longo, longo, longo sorriso de que os amigos haviam falado tanto tentando o convencer a sair.

Ele cheirava os pés dela, lambia. Venerando. Satisfeita, ela abriu a porta, o fez sair.

Ele se agarrava ao chão com suas patas mas ela o empurrava para a varanda. Olhou em volta e a noite comia a visão. Só havia hugo, o outro cachorro, que fumava deitado, lendo um Borges, buscando compreensão da vida, na espera de entrar na casa novamente.

Outros cães formavam fila até sumir nas trevas da noite. A porta abriu e ela chamou Hugo. O cão pulou nos braços dela, que o levou pra dentro fazendo com que todos os cães dessem um passo pra frente na fila. Queria voltar e lamber os pés dela, sentir o cheiro da cintura dela ao vibrar as mãos na barriga dele. Sentir a magia. Seguindo os cães em fila, desceu as escadas. Os degraus separavam a casa da noite.

Foi até a poeira das ruas, até o canto de “deixa levar, deixa levar” das ondas. Os cães se perdiam na noite até a névoa da manhã cheia de solidão. Milhares de cães perdidos em busca de um amor qualquer.

Inicio do Mar

O tempo que resta não sabe sobrar. O tempo que resta, no choro da noite, não sabe sobrar. Não sabe sobrar, a dobra do mar não sabe sobrar.

Palavras não saem, não sabem sobrar. Palavras não saem, o gole a sumir, não sabe sobrar. Não sabe sobrar, a dobra do mar não sabe sobrar.

Engole a dor e vai, não sabe sobrar. Engole o choro e vai, não sabe sobrar. Engole o que é dor. A dobra do mar não sabe sobrar.

Sento para ver o mar bem na dobra do mar. Não sabe sobrar na dobra do mar. Engole, engole, não deixa sobrar.

Canto de Petrópolis

Minha voz acorda o vento, avisa a cidade depois de mim: para lá não, não volto, pro mar não volto mais!

Meus pais acordam a manhã, avisam do dia que vai chegar, precisam me ver rezar: pra lá não volto mais.

Vestido de névoa, o vento chegou. Como borracha, o vento passou. Hora de pensar tudo de novo. Avisa a cidade.

Minha vergonha habita o Rio, das mentiras que fiz dia. Hoje falo sem ter existido. Aquele não volta mais. Meu amor surge no Lavradio, levando pela montanha, me limpando e não volto: para lá não volto mais.

vestida de rosa, Nathália chega. Como borracha, passou. Abraçando a noite, aquecendo a manhã. Avisa a cidade, avisa a cidade: sob a minha falha memória, sob os cabelos brancos num feitiço forte de sereia de rio. Sei que um dia tenho o que sobrar. Avisa o vento: tudo passa, até o mar, Nathália não passará.

Verão

Minúsculos mosquitos. Microscópicos. Tiram pouco a pouco meu sangue de jovem. Nos dias de verão, minúsculos mosquitos. Microscópicos. Todos os dias me envelhecem.

Expresso Transcontinental

Carrego muita tristeza num trem sob o mar. Olham meus documentos e fotos, num trem sob o mar. Suburbano, latino, suspeito, num expresso sob o mar.

Carrego minhas máscaras entre continentes, correndo veloz pela França. Suburbano, latino, suspeito, num expresso sob o mar.

Fujo por medo do diabo, de mim. Sim, fujo do diabo que habita em mim num trem sob o mar. Carrego muita mentira num espelho de bolso. Olho tantos que nem sei num espelho de bolso. Tentei mais, tentei mais, virei meus pais.

Seremos passado ao amanhecer. Tentei mais, tentei mais, virei meus pais.

Seremos passado ao amanhecer.

Num trem sob o mar, espíritos, cultos, além da pele. Suburbano, latino, suspeito entre casas num expresso transcontinental. Seremos passado antes de amanhecer.

Passado de um tempo e lugar onde existia magia. Onde se podia crer além da pele, carne e ossos. Crer deuses e demônios, espíritos, cultos e ilusões.

De todos, guardei somente os prédios onde me escondi horas de carro da casa onde cresci. Ainda era menino, buscando mãos alheias para me sentir seguro, sem saber o que dizer. Nunca sabia muitas palavras, mas tinha a certeza qualquer menina de olhos grandes podia guardar algo suficientemente exótico para se perder entre meus pensamentos de brinquedo.

Muito mudou em Campo Grande. Meus amigos têm filhos e festas de aniversário da Peppa Pig e Bob Esponja. A primeira casa do bairro era escola, virou estacionamento. O império da Silbene fechou. Tive muitos amores que nasceram e morreram nos fundos da Silbene. Depois da aula, tomando um milk-shake, comendo um salgado, passando os dedos pelas revistas. Eram amores de fundo de loja, amor de não mais que uma troca de olhar. Amores sem nome. Amores que fecharam as portas com a Silbene. Amores que foram demolidos e hoje são um estacionamento,10 reais por 30 minutos. Diária a checar.

Amores que choraram, como fiz no quarto de hotel; fiz no ônibus indo para São Paulo. Chorei no táxi, chorei no avião.

Passo o tempo com medo da insanidade que me vem à noite, me levando embora, para uma clínica na frente dos olhares dos vizinhos pelas frestas de portas. Passei tanto tempo tentando não ser o que falaram que seria quando crescesse que não fui a lugar nenhum. Passei tanto tempo tentando fazer com que a loucura não me definisse que não notei quando ela entrou e tirou os sapatos. Foi na semana passada.

Desde então, voltei a sonhar com um vulcão. Ele existia no bairro onde cresci. Era um morro largo no centro de um parque nacional. Com um pouco de imaginação podia se ver, no plano topo, milhões e milhões de anos de fogo e destruição. Quase 30 anos atrás tinha muita imaginação e ainda não sabia o que significava o termo extinto. Passei anos e anos da minha infância com medo da destruição iminente que aquela montanha traria.

Tinha muito medo do diabo e do inferno que me aguardavam por não acreditar em Deus, mas ter medo do vulcão era muito pior. Tudo que eu conhecia, todas as pessoas que amava, todos os passarinhos, todos os cachorros, todas as folhas da mangueira do Seu Júlio, todas as cartas erradas entreges do carteiro novo,os namoricos por cima dos muros, as fofocas na calçada aos domingos, os jogos de futebol com chinelos de gols, todos os todos. Todos inocentes condenados. Todos iriam morrer, de uma hora para outra. Meus pais, minha irmã, meus avós, eu mesmo. Seríamos fogo e destruição.

Acordava assustado de noite com um barulho que vinha do lado de fora da casa. Calçava meus chinelos, ia em silêncio pelo corredor, até forçar meus olhos pelos vidros pouco transparentes da sala.

A vista correndo sobre as casas. Tetos de laje exposta iluminadas pelo mercúrio das ruas, até a escuridão que era a montanha. Olhava atentamente para ela buscando algo para me alarmar, já pensando quem teria que acordar na casa. Que brinquedos salvaria, qual caminho nos levaria mais facilmente ao mar.

E eu demorava muito para me acalmar, dormir de novo. Mesmo sabendo a palavra “extinto”, tinha essa sensação de morte iminente. Tinha o medo daquele fantasma cinza que se erguia como um monumento do chão de onde crescemos. Era um Deus adormecido eternamente que não conseguia deixar de temer. Muito pouco mudou em Campo Grande desde que era fogo e destruição e os deuses andavam entre nós.

Houve um tempo em que as árvores, as montanhas, tinham vozes. Se erguiam como tambores tocados por mãos calejadas sem raízes buscando um lugar para se esconderem. Desse som surgia, surgia sim. Surgia a voz de Olorum, a voz de deus.

A voz guiou o caminho da fuga no tempo do rei. Na época, já éramos escravos. Nas noites silenciosas contavam uma história de um jovem. Um dia saiu de casa. Talvez não se sentisse parte, talvez ninguém o tenha entendido. Mas ele foi de lugar em lugar, na busca do que lhe fazia bem. E de porta em porta não havia porta que o abrigasse, braços que se abrissem, boca que se falasse, coxas que fossem colo, sexo que acolhesse. Vagava sem lugar. Temia, acima de tudo, voltar. E por isso continuava a fugir sem notar que uma doença se alastrava pela região desde a casa dos pais até o último lugar em que seus pés tocaram.

Todas as pessoas, bichos e plantas caíam em escuridão enquanto ele fugia. O fugitivo entregou seus sofrimentos aos céus, às árvores, a Olorum. Já desistia de tudo quando ouviu uma voz no vento, entre as folhas, que lhe dizia: “era hora de voltar”. Que caminhava com sofrimento e era dono da peste. Era hora de se arrepender e voltar atrás.

Seguindo a voz da floresta, voltou. Num dia, as portas se abriram. Os mortos se levantaram. Ele estava onde deveria estar. Senhor da cura, dominava os caminhos da peste que mesmo criou por ir tão longe.

Peste que caminha meus caminhos, entra em minha casa, toma banho comigo. Janta aos meus pés, me espera para dormir. Peste que me leva de volta para o elevador, contrariando minhas regras valiosas, seguindo escondidos para onde moro. Peste que ignora meu medo de morrer sozinho e louco, e aceita: é hora de registrar tudo que sou e fui nessas décadas e décadas de falsa juventude.

Sou Daniel Pandeló Corrêa, nascido e criado no subúrbio. Um pouco índio, um pouco negro, um pouco europeu, um pouco escravo, um pouco genocídio como todo latino-americano. Por anos, me escondi em tantas mentiras que criei passados, presentes e futuros muito mais aceitáveis. E vivi neles. Era steampunk, cyberpunk, dieselpunk nas mentiras para esconder o meu suburbiapunk.

Sou peste sem saber cura, sou a loucura que me consome de noite, sou o vulcão que se extinguiu, sou a luz de mercúrio. Sou as histórias que contarei antes de amanhecer enquanto carrego minhas tristezas nesse expresso transcontinental.