Tristes Camelos

Para Gabriela Bonavita

Nota do autor para a nova edição

Comecei a escrever esse livro aos 17 anos durante uma séria crise de depressão com o objetivo de tentar causar no leitor a mesma desorientação que sentia. Era uma história cheia de subtextos e tramas paralelas sobre desencontros, sobre não ter coragem de falar a verdade, sobre não saber aceitar que algo acabou. E fiz tão de coração, que virou um retrato do que era.

Dois anos depois, fiz uma edição independente que evoluiu para ser tratado como uma revelação por uma editora em 2010. Aí chega a ironia: o livro foi algo que me machucou por anos. Encarar o “Tristes Camelos” era como olhar para uma cicatriz, para algo que representava uma tristeza. Eu que não soube dizer que acabou. Só via o pior de mim.

Hoje, 10 anos depois dessa última encarnação, vejo que ali estava o meu melhor. Cheio de erros, mas entregue, apaixonado, que quis ousar em algo e principalmente – que realizou. Vejo com orgulho esse livro na estante e fico feliz quando alguém lembra algo dele ou diz que o encontrou em alguma livraria.

“Tristes Camelos” foi o pior e o melhor de mim e hoje é algo pronto para virar algo novo. Esse livro se tornou um marco de como quero aprender com o passado e não me envergonhar dele. Se isso falar com você, já ganhei o dia. 

Ah, duas últimas coisas: 1) esta edição tem leves alterações aproximando mais da versão independente e de algumas coisas que queria fazer na época; 2) se um dia me encontrar e quiser entender melhor essas ligações e subtextos, me paga um café que eu conto.

1

Se por ventura me olhasse de novo, e bem, diria. Novamente. E disse. Foi então que o ritual se iniciou. Girar a chave do carro de marcha à outra e indo marchando, em direção às velas velhas, e ao cheiro que se tinha largado para trás em fumaça e suor. E os pés mexiam em controle, em dança, quase parados, mas confusos. E era tão confuso não saber se confundir.

Só lembrava bem que, após tudo que foi dito, queria controlar os pés, as mãos, queria ter o movimento certo, o ímpeto apropriado, queria ter comprado palavras de uma banca de jornal e não me sentir só. Sou só, e somente assim eu trazia para mim, todas as manhãs ou madrugadas, como em um ritual masoquista, o mesmo que ela fazia quando era sozinha ao meu lado.

Era o mesmo que ela fazia para fingir que se conhecia e simular que afogava nela mesma e dirigir aquele riso amarelo no fim, como se soubesse sempre que tudo que ela sente se guarda nos bolsos. Escondido do sol. Escondido de mim. Eu que nunca guardei, e sei que ela sabe. Ou não. Ela nunca soube nada. Quem era ou que sentia. E quando perguntei o que ela queria afinal de mim, ela rabiscou com raiva um papel e atirou no meu colo.

que você se amasse

que olhasse nos olhos

que desse os braços

que sorrisse de novo

de vez em quando

e como, e sempre

que me notasse

que me usasse

que bebesse menos

que nunca fumasse

que aquele “one-night”

que aquele beijo

mesmo que sendo nela

pudesse sugar os seus problemas.

O sinal estava fechado. Tomou o papel das minhas mãos e desapareceu. Foi antes de tudo, foi depois de tanto.

2

Eram 40 andares e 40 amores em cada uma das 40 portas daquele corredor em que as luzes se escondiam na força do Sol, na janela, no fim das portas, dos amores. Em uma das portas

se via a mesma luz que em outra janela que tomava uma parede. E o mundo lá embaixo era cruel e corrido, e ninguém via que tudo corria pelo corpo, que as palavras se perdiam como se o sangue as tivesse roubado para longe da boca e os pensamentos se desfaziam como se os tivesse digerido antes de sentir o sabor. Não faz sentido nem balbuciar uma sílaba tola. A vida da vida que era mais viva que a vida poderia viver foi embora e sobravam os 40 andares, amores e portas e a vontade de voar dali.

3

Era a segunda vez que subíamos aquelas escadas. Os olhos escondidos sob os óculos, a alma dentro de si, palavras no bolso, como que já tivesse decorado para falar daquele jeito, com naturalidade, ou não – “sinto como se fosse seu funeral” – e ela lembrava, eu sei, da primeira vez que passamos ali. Àquela altura eu já sabia bem ler o jeito que não me olhava mais. E lá estava o mesmo silêncio que cultivamos por prazer, os mesmos óculos que via todos os dias, mas não aquela fresta para desvendar. E lá descer as mãos e entrar pela calça descendo devagar a alça do vestido ao seio nu e os beijos e as carícias e o modo que sugávamos nossos lábios, seus seios e sua voz, que ia doce, fraca ao meu ouvido, e nossas mãos que se perdiam onde ninguém podia ver. “Sinto como se fosse seu funeral” e as mãos dela se escondiam tentando esconder os olhos – 5 degraus, um extintor e a porta – “eu já sabia, tá? Sempre soube”. “Eu sei”. Desde a primeira vez sabíamos que não passaríamos dali, das mãos, dos seios, e um dia iríamos voltar, de algum jeito, iríamos.

Mas, por fim, era bem mais provável que nada ocorresse. Era só ela, como sempre, sentada até o apagar da luz. A luminária no canto projetava sombras, projetava livros que guardávamos sem ler, e tudo que nunca dissemos. Projetava no ar tirando a blusa sem saber das palavras, repetindo ali aquela escada, e no silêncio do silêncio me puxou e buscou meus lábios e foi tão firme, tão firme e a doce vermelhidão do sutiã se desfazia centímetro por centímetro, escalando até o bico do seio e então se desmanchar de uma vez. Naquele instante, as mãos que foram direto entre minhas pernas não eram, mesmo sendo, de quem arranquei a saia.

4

“Desculpe o atraso, desculpe mesmo. Tentei vir voando do trabalho, mas sabe como trânsito é por aqui nessa hora, Luíza. Tive que parar o carro lá atrás. Novo? Sim, sim, novo. Já sabe então. Você sabe. Bom. Não, não. Acho mesmo bom que você saiba. Eu só não sabia muito bem como falar do aci… Não, não. Sem neura. Eu to bem. Juro. Temos tantos outros assuntos a falar. Acho melhor focar neles. É, bem… você já pediu algo? Dois? Achei que nem se lembrava mais, Luíza. Achei mesmo. Dois anos. Dois anos já, Luíza. Será que vivemos aquilo mesmo? O que vivemos? O quê? Tá bom. Tá bom, Luiza. Você sabe bem que foi péssimo para mim também. Assim como você sabe bem que só te chamei aqui para falarmos da Gabriela. Acho que apresentei vocês algum dia, né? Essa mesma, a ruiva. Naquela festa. Boa festa. Ela mesma, a ruiva. É… eu sei. Tinha foto dela no jornal. Você tem um cigarro? Brigado, acho que vou precisar. Luíza, vai ser importantíssimo que você me ouça agora. Serei breve. Vou tentar. Tem fogo? Brigado.”

5

Ela disse: “Por favor, não goste de mim.” Só “por favor, não goste de mim”. Era verdadeira o suficiente para não acreditar em mim. Talvez se tivesse dito no dia anterior. Talvez antes de ver ao longe e chegar e ver o sorriso, beijar a testa e olhar nos olhos, notar que ela brilhava. Talvez antes de ainda crer que algo pode ocorrer na vida. Antes de perder a fé no que existe. Ela brilhava e cegava os olhos e enganava meus lábios que não sabiam mais o que dizer. Ela roubara o pouco que sobrou. Se o amor existir mesmo, talvez seja isso. Talvez se tivesse ficado em silêncio – com os lábios enganados como sempre foram – desde o começo. Talvez se balbuciasse “agora é tarde”. Talvez se fingisse não ser comigo, se inventasse uma piada, mas agora é tarde. De algum modo é como se esperasse isso dela. Ela era íntegra o suficiente para saber que não me queria. Não acho que sou o que ela procura afinal. Dois anos, dois anos. O que são dois anos? E ela diz “por favor, não goste de mim” com o olhar de quem acorda depois de uma noite horrível e tenta dizer de um modo simpático “bom dia” para as pessoas próximas.

Tinha olhos cinzas como olhos de pequenos bebês. Olhos de pequenos bebês brilham. E lá não existe tristeza ou alegria. Só uma apatia de medo e curiosidade sobre os nadas que insistiam em continuar na frente dela. Agora era tarde demais, e ela dizia com esses olhos de quem acorda dentro dos olhos de bebê, que não brilhava mais. E os olhos viam bem os movimentos duros das palavras no ar: “Por favor, não goste de mim”.

Com olhos cinzas, como os olhos do bebê que mama e olha o mundo passando rápido pela janela do metrô, enquanto sua mãe – que aparenta mais idade do que realmente deve ter – vai curvando a cabeça com o movimento, tentando ler o jornal de um homem velho, que fala alto sobre como era mais complicado nos tempos do bonde, das pessoas que corriam atrás do bonde, dos acidentes do bonde e bradava em alta voz que muitos perdiam mãos e pernas nessa correria e que ele quase tinha perdido a sua numa terça-feira chuvosa de um março qualquer de muitos anos atrás, quando corria até o bonde e tropeçara e caíra na frente do mesmo, disse que o bonde parou muito perto e o ouvinte – que tinha menos da metade da idade do velho – olhava atento pro decote em v profundo da morena com motivos para decotes em v profundos, que segurava firme a barra no centro do vagão e prestava atenção, com um pouco de desdém, para sapatos iguais aos seus na mulher de óculos escuros retrô, que andava com pressa, como que se escondendo do mundo. Se escondendo dos amores que a seguiam pelos corredores da estação em pensamento, fugindo do meu pensamento. Fugindo da minha vontade de puxar papo, de marcar um almoço, trocar telefones, e-mails. Da minha vontade de procurar Gabriela nela. Sempre procuro Gabriela, mas ela não existe. Gabriela não existe.

6

Quando mostrou o rosto, a voz e o sonho, não soube que era como espelho. Tudo parecia resto de outros rostos, pedaços de outros abraços e sonhos quebrados entre os dela. E eu era assim tão dela, e sabia, até mais que eu poderia, que moraria entre os dedos dela se soubesse ser ela. Não quero dizer agora que a amo ou justificar por que me escondi. Ou por que não notei ou pelo menos não demonstrei que senti o ar sumir quando ela chegou com aquele jeito, e andava como se anda com os dedos no piano, chovia dentro de mim e fazia tudo esmaecer. Lembro da voz, do rosto no ombro, do modo como se entregava à música. Tirou meu ar ao entrar. Queria ficar ali, me ajoelhar, beijar e lamber a barriga. Queria poder implorar de novo.

Ela estava lá comigo quando era para estar. A música nos envolvia, e ela passava os braços dela por baixo dos meus e me envolvia como se pudesse segurar todo meu corpo. Ela poderia, sempre que quisesse. E as mãos dela procuravam as minhas, a sentia respirar e soprar de leve no meu pescoço, e dançávamos.

7

Difícil não notar, difícil não notar entre os papéis na caixa sob a cama a foto. Sem muito cuidado ou estudo, bati, e ela lá, sem notar, sentada no píer, rindo do verde e vendo o sol e a

cidade. Sem flash nem nada, era luz de sorriso ou a cor dos cabelos, como quando se penteava, calma, no quarto, com ombros à mostra, a pele suave e o mesmo olhar forte que refletia no espelho e insistia em me derrubar da cama. Tão concentrada com o olhar nas ondulações do mar e nos cachos e nas cores e perfumes e gostos e víamos a vida e ríamos dos nossos caminhos sem direção e das mesmas ruas onde tropeçávamos e admirávamos tantas dela em tantos olhares que nunca seriam iguais ao dela. Era única.

Pousava a cabeça no meu ombro no sono e me deixava correr os dedos pela coxa dela no frio. A mão me segurava firme, e era cruel o jeito que ela sorria e o tom de voz e o modo como isso me fazia sentir falta de esconder o amor que fingia mostrar por aí, enquanto dormia em sonhos profundos que não descansavam mais. Ela parou em minha vida enquanto se apressavam como os que se apressam ou se acomodavam os que se acomodam. Ela me parou quando nem eu iria parar mais. E no surdo do mundo, sem pressa, sem acomodação, motos, carros e o que fosse.

8

Um barulho extremamente irritante quebra o silêncio. Era o que tinha, só o que tinha. Só meu. Anunciando que é hora de começar o dia, anunciando que acabou o sonho. Pela janela, um sonolento mundo a bocejar de um modo diferente. A Névoa, a Névoa. Não estava mais lá. Só o que sobrou. E os lençóis desarrumados sobre a cama. O travesseiro como companhia, ombro amigo, grande amor. E o que restou do silêncio. Não estava mais lá naquela manhã. Nada bom.

Bom, bom… Fique, sonho bom. Não deixe um barulho irritante te roubar. Ainda existe o que sonhar, acho.

Na mesa do café ela ria das bobagens que falava e olhava de um modo leve e sonolento enquanto eu pensava que era sortudo, mas que isso não duraria muito.

9

Tudo estava tão comum à medida que ela se atrasava. As pessoas desciam do ônibus, e subiam de novo. E ao longe vi brilhar a aura dela. A curva seria feita minutos depois, e as mãos suavam. Um calafrio que descia subiu de novo para brincar de descer à medida que via o sorriso. O corpo se embrulhou e despedaçou em subidas e descidas no corpo dela – pego no ar segundos após o ônibus abrir a porta.

10

Lembro dela me mostrando a foto de um lugar, que chamava de Recanto da Santa e dizia: “o tempo não passa no Recanto da Santa, amor”. E era uma foto simples de revista, tinha uma velha bem velha no meio de dois homens, um com barba e ambos com cabelos desgrenhados, e uma mulher com olhar triste ao lado do homem barbado, e, na frente dos dois, duas crianças pequenas: uma sentada brincando com o chão e outra, um pouco mais velha, em pé olhando pro outro lado. Outra criança estava enrolada em pano velho nos braços da mulher de olhar triste. Todos sérios.

11

Diziam em que era péssimo quando chovia no Recanto da Santa. Para pescar, não dava, e lama escorria entre os sulcos da produção de cana e descia devagar das encostas da BR-alguma coisa que passava ali e invadia os casebres de alvenaria pobre que se erguiam – talvez por ajuda da santa – da lama.

Ninguém sabia mais da chuva. Ninguém sabia de nada.

Só sabia que acertou. E acertou. Tão certeiro que cortou a pouca carne que guardava nos joelhos em duas bandas vermelhas. Donde era chuva e lama, distinguia a vermelhidão que escorria do aberto pelo tiro que escorria pela pata tão cheia de pelos que tentava segurar a dor e correr. Seu joelho estava fodido, era só nisso que pensava, enquanto transformava sua então corrida em rastejo. Afundava aos poucos no barro mole; sua perna era sangue, seu sangue era lama. E era e era e sentia que era e achava que sentia que era. Doía mais pensar na dor que se podia ter. Escondeu-se num mato alto, no que parecia ser pedra, mas que escondia, e se cobriu da poeira presa e mole da lama na beira do rio. Rasgou pedaço da camisa moída de velha e ratos – joelho queimava, era muito sangue, e chovia e chovia – e do rasgado fez forte em volta da ferida, segurou sussurros de dor, gemidos presos e dor por outros que já haviam tomado o ar e o ar e o rio. A chuva o escondia, agradeceu seu santo

e seu orixá, mantinha a dualidade por segurança, e o silêncio por ouvir ainda os passos sem saber se eram perto ou longe. Não era bom quando chovia no Recanto da Santa.

12

Seria um grande pesadelo. Mas pesadelos não existem, e sonhos, tampouco. Eu prevejo o futuro quando durmo. E via de vez em quando em velho sem uma perna que carregava muletas e sangrava do que lhe restava de perna. Um sangue barroso, em gazes vermelhas. E segurava uma cruz rústica nas mãos, com as muletas, e as farpas invadiam os dedos enquanto subia escadas.

E dizia: “Jesus é meu amigo”. E subia as escadas se rastejando e gemendo palavras e sangue: “Jesus é meu amigo”. E o esperavam lá em cima, outros velhos, de duas pernas e riso sobre o sangue que o levantaram do chão e levantaram aos olhos e disseram “Ele lhe tirou a perna” e o empurravam e riam do velho rolando pela escada. Não conseguia ajudar nem correr. O sangue respingava-lhe nas mãos paralisadas, e a cruz da mão eram farpas voando para longe dos dedos, sobre os meus. Os velhos viraram e desciam lentos enquanto o sangue lá permanecia imóvel.

Quando o despertador tocou me parecia uma mistura de lamentos e cantos gregorianos.

13

Aos 23 anos, pensei que queria ser jovem de novo. Se pudesse voltar no tempo e aprender a beber mais cedo, talvez fosse um alcoólatra numa esquina, esquecendo de me importar com a vida. Talvez se tivesse decidido me drogar, estaria hoje já morto por querer assim e todos me dariam por coitadinho ou falariam “no fundo ele era um cara ótimo”, “não foi culpa dele”, talvez se tivesse ficado quieto, talvez se ela tivesse falado no dia anterior, talvez se não tivesse tanta preguiça de me matar. Suicídio é pesado, talvez se tivesse me drogado mesmo… Suicídio por si só é muito trabalhoso. Ajustar o gás no quarto fechado, prender a corda, pegar o impulso para pular da janela do décimo andar, checar as balas na arma, preparar os pulsos pro corte e esperar sangrar e então morrer é muita coisa. Vivo, e espero morrer. Mais fácil. É uma merda pensar assim aos 25, quando queria não ter pensado isso aos 23.

Gabriela não queria ter pensado em nada. Ela só seguia seu rumo. E eu tão amigo da morte ficava com receio quando ela dizia para eu deixá-la na rodoviária nos horários mais exóticos da madrugada onde ela habitava. Ela sempre estava longe, indo pra longe, de um modo tão distante. Mas quando se mostrava, dizia para não ter medo da violência, e sim do que a produz, como quase um jargão ou lema das coisas que ela ouvia na faculdade, ou dizia que não prestava, que era um filho de uma puta, um merda, um vagabundo, um atraso, um idiota. Gabriela sabia se irritar. Eu irritava a vida tão viva dela com minha vontade de morrer.

14

No canto daquela pedra e lama, entre seu orixá e sua santa do seu recanto, ele não sentia vontade de morrer. Sabia que não prestava, que era um filho de uma puta, um merda, um vagabundo, um atraso, um idiota. Quando fez o que fez sabia no que poderia acabar em poça de sangue e lama.

Cresceu com sangue fraco e nem sempre constante nas veias. A família viera sabe-se lá quando e só iria embora quando o rio fosse embora. Era ele que decidia o fim de todos ali. Seu avô morrera quando o barraco velho cedeu nas bases e desceu o rio numa enchente. O rio sempre fora o lugar onde seu avô estava. Desde pequeno lembrava do avô molhado e com a tarrafa e aparecendo quando o céu já corria rosa, nos tempos em que pescar vinha peixes junto. O pai morrera quando era bem menino ainda, nem chovia nem nada, era só besteira de pular do alto da ponte na tarde de domingo depois da cerveja. Coisa de sempre. Mas não viu a pedra. A de sempre.

A mãe enlutou desde então e se trancou na casa, aos pés da santa, rogando pelos mortos pecados do marido morto e talvez implorando para que fosse também. Seu irmão, dois anos mais velho, já seguia o pai quando ele morreu e virou exemplo para o mais novo. O irmão sempre segurou o mundo nas costas. O mundo era a tarrafa, e girava o mundo sobre a cabeça antes de jogar para longe e ver que o mundo afundava. O mundo sempre afundava.

E eles tinham o tempo livre para pular na água e nadar um tanto longe até dar a hora de recolher a rede e voltar, como fazia o pai.

15

E aquilo era familiar, a mão no isqueiro, acendendo meu cigarro, sem olhar para mim, sem ligar muito para o que formava em palavras de mim. Difícil dizer. A verdade não sai assim, pura, sem dor, mesmo se for passado e do passado que se tende a esquecer. Foi só desejo. De cabeça baixa ela ficou a girar o dedo sobre a borda do copo, já mais vazio, que não girava. Éramos os mesmos, tão diferentes do ano anterior, no mesmo bar de sempre do mesmo garçom que vinha. E perdidos, na meia-luz, nos meios-risos, nas meias-rodadas, nas meias-músicas cantadas lá fora. Brincando de ciranda com nossa falta e o vazio que mantínhamos no universo entre nós dois. Ela sabia que a saudade só ia formar mais e mais desejo e desejo. E lembrava-se dos pelos entre os dedos e dos seios nas mãos e as palavras que um dia fizeram tanta pouca falta.

E sabia que no vazio do copo cheio que tudo faria muito mais sentido sem o corpo dele.

Ela disse que foi uma tortura e que não podia mais isso, pelo que passou, pelo que foi para ele. E que ninguém sabe – ou notava que sabia – que nunca se soube nada sobre ela.

A verdade saiu e só, entre os goles, o veneno. E na hora veio a saudade do segredo que já era costume, do rosto perplexo. Era um segredo tão reprimido, e disse que não sabia e que iria doer.

16

Começou nas primeiras chuvas, e os olhos doídos de sessão que não acaba, e ela queria também. Que chegasse sua vez de pegar o ingresso e entregar e pegar e passar da porta e escolher a cadeira e deitar no ombro e comer pipoca e trocar carícias e sonhar com hora marcada. E mergulhávamos no nosso escafandro no calor no cinema à procura do que disse que não existia mais. Repeti que sou como os iguais, e ela sabe bem, que ficasse claro que amor de filme não existe e sonhar demais é frustração. E ela disse que a graça está no cruel mundo dos que sonham.

E volto a sonhar, às três da manhã e ela é a única pessoa em que volto a pensar, a me viciar. A sonhadora de olhos fundos entregue para algum outro. Quero ser só um pedaço para ela.

Ser de novo aquela boba paixão. Ela é a vida que minha vida não vive.

Ela é o que sobrou no nosso confundir de pernas e corpos. Disse algo sobre eu sempre estar no caminho dela, sendo que tínhamos acabado de nos conhecer. É, talvez fosse. Talvez proposital. Talvez. Ou não. Andávamos onde não tinha luz, tateando corrimão, subindo degraus. Segui a respiração que pulsava à frente e me levava pela mão. Aquilo falava bem mais alto que o silêncio que mantínhamos até os dedos finos dela segurarem minha mão e dizer calmamente e com o sorriso mais irônico que ela já fez “agora é nossa vez de viver bobagens” e riu doce, de lado, sob a luz fraca que vinha da porta entreaberta do andar de cima, apoiada contra a parede, olhando para o nada que nos encurralava. Ela parou na minha vida do mesmo modo que a parei, enquanto corria meus dedos pelo pescoço dela, e a pele arrepiava e sorria. Ela parou na minha vida enquanto me seduzia e dizia que era só bobagem. E uma mão subia até a nuca, puxando de leve os cabelos tão vermelhos, e meus lábios corriam o pescoço procurando a boca que olhava pro lado, sorrindo da bobagem que vivia. As unhas brincavam do lado do meu corpo, e meus dedos ultrapassavam a barra da calça. Ela riu e disse com qualquer naturalidade ou ironia ou só um sadismo erótico “o que quer então?”, e passou a língua pelo meu ouvido de um modo que conheceria tão bem, que me excitaria sempre, como se fosse um orgasmo ou como um sussurro. Um sussurro à meia-luz de lembranças que nem nós sabemos se são reais.

De algum modo idiota, eu só consigo amar essa ilusão, esse sonho bobo que me seduziu por bobagem. Um dia vou deitar ao lado dela e sussurrar tudo que sempre menti que pudesse ser.

17

Refiz nossos segredos na sala de espera. Lembro do carro e da estrada e de sua voz aos poucos tomando conta de todo o ar à medida que crescia junto de seus relatos e dizia do tempo que estávamos juntos, sobre detalhes esquecidos de quando nos conhecemos e quando confessou que traiu e com aquele que dizia só maltratar.

Ela foi cruel ao ponto de se apaixonar só para abandoná-lo. Foi antes de me conhecer, ela jura sob seus perfumes um “depois de você nada mais vale a pena”.

Nós traímos tantas vezes. Tentei contar das outras para ela, mas não tive coragem e ela me olhava com aqueles olhos que queimam, alisam, como piromaníaco. Ela desfazia minha culpa num desejo doce de beijá-la, e seus lábios entreabertos e seus sorrisos e as palavras que jorravam deles. Meu Deus, eu amo.

E o dia não se foi e seus pés procuravam os meus no frio e ela ria na cama, e escondia o rosto na dobra do casaco e puxava para perto. E pulou da cama e correu e voltou com uma caneta e disse “levanta a blusa”. Continuei imóvel, com cara de preguiça, e ela me beijou e levantou a blusa e abriu a calça e escreveu em minha virilha “Quero viver no bolso do seu jeans.” E sorrindo completou em meu ouvido, de modo lento e sussurrante e tão forte, quase profano, devasso, de quase perversão ou perfeição “e ser a menina bonita do laço de fita dele, um chaveiro, a chave. E me perder em sorrisos, viver em versos. Versos, ver sós, ver sóis. Luz”. Passou a língua em meu ouvido, me beijou, se trocou e saiu pro trabalho. E essa foto e esse dia bom que me persegue de novo. Não me lembrava dessa. Acho que nem ela sabe. Mas, Deus. Tantas lembranças. Não há mais o que lembrar além da saudade, e saudades do quarto amanhecendo.

Sinto falta de tudo se decompor em amarelo. Sinto falta da cama tão desarrumada em nossos lençóis revirados. Sinto falta daquelas pernas que um dia cercaram-me enquanto deitava, sinto falta do rosto ao ouvido. Respiração ao ouvido, respiração ao ouvido, respiração ao ouvido, respiração ao ouvido.

Sinto falta de sentir o ar levando aquelas mãos, leves, por toda a minha cintura e descendo e subindo, as unhas dela rasgando meu lado. Sinto falta do perfume a levar, a levar. Levar. E do rosto, derretido em amarelo frio e discreto, ainda com sono, olhos sequer abertos, perfume ainda ali. Escondendo os cabelos do meu olhar, se mantendo à mostra, se mantendo em mim. Sinto falta do gosto do perfume. Do gosto do gosto e do perfume do gosto. Sinto falta do rosto e das palavras sem sons que me desfizeram – em um amarelo frio e discreto.

O amarelo seria esquecido nas luzes vermelhas do meio-dia.

18

Ou se perderia sem cores após o vermelho quando tudo girou, girou, girou. E os corpos se desgrudaram dos bancos enquanto os vidros explodiam e o airbag abria sem saber para onde. Até parar para começar a voltar. E sinto minha pele queimada esfriar, o fluxo de sangue, os gritos reversos. Os gritos de novo. Então viro criança, e grito, e grito. “Mamãe, mamãe.” Minha pele volta a queimar, o fluxo de sangue, o choro. O balanço não foi suficiente pra mim, o voo pendular não chegava até onde queria ir – fui sozinho – 3 metros de altura por 3 de distância. Vejo agora braços tortos, quebrados, pele queimando. Lágrimas torrenciais. E grito, grito, grito. O portão continua fechado. Todos dentro. Não saiu som de mim, não saiu som da porta. A areia começa a absorver o sangue, e ser absorvida por mim. Meu rosto é de sal. Minhas pernas tremem. Se mexa, se mexa.

Braços tremendo, agarro o chão. Berro. E me viro. Sou um bebê quebrado. Um bebê num berço, chorando. Sem mãos por perto. Rosto em sal, coração em acelero. E as mãos me pegando pela cintura e me erguendo, e sinto que sou. E sou. E sou entregue a um rosto sem sal de braços tremendo – “meu bebê, meu bebê.” – e me apertou.

De braços tremendo, ela segurou com força meu rosto de sal enquanto isso tudo não acabava – “isso tudo vai passar”, ela disse, “eu sei” então dormi.

Então morrer aos poucos voltava tão mais viável à medida que sonhava de quando sentava, em fila, com sua família, sob o silêncio do mundo e se espantava com o farfalhar de asas das dezenas centenas milhares milhões ou bilhões de pássaros que passavam em rasantes e encolhia ao barulho da fuga dos cães, da morte dos cães. E sentia a força que o pressionava contra a parede na qual sentava com a família e seus mortos. E a força crescia, e a dor e os pássaros e os cães e o céu eram pássaros e o chão, cães e seus pés já não tocavam o chão. A pele de sua mão se dissolvia e suas unhas caíam entre os cães, sentia-se molhar pelo próprio sangue ao ver sua carne atrofiar e atrofiar e seus nervos diminuírem e vasos sanguíneos secarem até os ossos se esfarelarem e sua alma esvair levando a dor e a morte lhe pareceria assim tão mais viável quando acordar.

19

Quando acordei, tudo era cinza. Sentei à cama – vozes na sala. Choro. A luz da manhã irradiava na janela, pessoas sem rostos choravam. Papai passou de preto. Olhou fundo em

meus olhos, disse para eu voltar pra cama. Na sala tinham sete, éramos oito.

O quarto a que volto é outro, as coisas são outras. Meu pai está de preto – vozes de fora, choro de fora. “Seu avô morreu” – ele diz. Papai era direto. Ele era alto e impreciso. Nunca o conheci direito. Ele não era nosso. Saía quando não via e chegava quando estava cansado de ver.

Um pouco de luz e então o relógio, o barulho do chuveiro e o vapor de ar que corre pelo apartamento pelas frestas, pelo chão. Saio do sonho.

Da porta fechada, o cantarolar da velha canção. Cama, lençol ao chão, blusa, calcinha, sutiã. O perfume que julgara tão perfeito, a nudez do perfeito que exalava seus cheiros tão frescos pela fresta e cantos do quarto – e era tão forte, quase profano, devasso, quase perfeito – e o corpo se soltou da fenda, sentou na cama, murmurou “precisamos conversar”. Num sussurro etílico, dolorosamente libidinoso, não responde – cantarolara um gemido, uma praga, um obrigado. “Já estou saindo, já estou saindo”.

E se perpetuou quando a porta abriu; corpo nu envolto na toalha, os cheiros e gostos ainda tão frescos envoltos por gotas que escorriam ao acaso ao chão.

“Não dá mais, não dá.”

Agora o mundo parecia diferente, nem parecia que havia dois anos.

20

No bar, no mundo tão esquecido, o rosto da amiga chegava. E com um abraço de “nunca nos vemos”, sentava e pedia algo para beber, o mais rápido que pudesse. “É ela.” “Como você sabe?” e virava para agradecer ao garçom que chegava. “E daí? E como você sabe?”. E ria do mesmo modo que sempre me fez rir. Ela abaixava o olhar, mexia na borda do copo e estampava o sorriso mais malicioso que montava. “É. Parabéns, gostosão.”

Fora assim, e se foi quando as gotas chegaram ao chão.

E estou nas roupas que veste, com ou sem pressa, em qualquer lugar. No perfume colocado com um carinho que se perdeu. Na vida sem sentido.

Na marcação nos pulsos, na tatuagem no pescoço. Sou o desenho que esconde de mim.

Estou na marca de nome na bolsa de compras, nas chaves jogadas na bolsa, no sorriso tão sarcástico.

Na porta fechando.

Na porta fechando.

Tem veneno lá fora, viu?

Tem veneno no seu cabelo.

Tem veneno em suas mãos.

Tem veneno em você. Que sabe usar.

Agora sinto íntimo desejo que seria bom ter, só mais um dia, o mais curto que seja, no corpo, sem ter que imaginar. Estar o mais perto que for possível, te ver nova, e ver os longos olhos, cinzas, que irradiavam dela. Com o sorriso que perdeu minhas cores. No vestido

justo no corpo que no dia mais curto foi meu. Quero poder perder a ruiva.

E esperar com os mesmos olhos e com tudo que hoje é seu. Agora o meu ciúme que é uma farsa.

Não ligo que suma.

Mas, se porventura, me virar o rosto, desligue primeiro a luz.

21

No frio, pés que procuram os meus. Mãos escondidas no ar. A dobra do casaco, a manga estendida, a perna, a minha, a boca que ainda insiste, quem ainda insiste. A frase solta em

minha virilha. E pensa no calor de um modo que acha que aquece.

Chama.

Chama pequena, tão curta.

Se o tempo voltar, mudo seu fogo.

Não deixo seus porquês no ar.

Ela sentia a falta do som que as palavras faziam à noite, contra a chuva, me disse uma vez. Sentia falta do que ela foi, sentia saudade do que será. E nas mudanças repentinas respondia

com luz. Tinha a luz da proteção do passado em algum lugar que conhecia tão bem, onde minhas mãos seperdiam, onde começava o cabelo tão múltiplo, tão multiplamente vermelho. Uma hoje, minha imaginação depois. A rotina se foi nos 3 dias que passamos juntos. Nos 3 dias que não passaram por 2 anos.

E acabou sem imagens. Ela era várias outras, já não sabia o que ser. Não dava mais. Por mais que risse, que enfrentasse seu medo, que fosse tão grande, tão grande quanto o Sol, quanto as flores em sua virilha, e por mais que chorasse, gritasse e escondesse os dias parados e sujos onde ela esconde. Naquele segundo não dava mais. A luxúria da voz virou eco, e os sons da noite voltavam nos olhos dela. Nas lágrimas que derramava ao procurar suas palavras e roupas jogadas ao chão. Por mais que a tivesse deixado fazer casa nos meus olhos, e eu, nela; assisti sentado, esperando ela sentar e um pedido de desculpas. Olhos inchados, já não cinzas.

Só vejo nesses detalhes, no que restou dela. No cordão brinco calcinha papel amassado telefone anotado curva leve daquelas flores que desenhei, em detalhes, em meus sonhos, na geografia que desvendei pelos dedos dos pés. Os olhos fundos, na imagem, inchados. Nas

mãos pequenas a catar coisas, a limpar o armário e fechar a porta.

Aqueles olhos brilham mais quando secos. Meus fundos olhos seus que abrirão aquela porta.

22

“Bem, a Gabriela, Luíza. A Gabriela. É, não sei como começar, não sei mais o que falar sobre ela depois de tudo… Boa, boa. Eu te chamei nesse bar, nesse aqui, para te falar isso, porque esse lugar tem o cheiro dela. Era aqui que vínhamos falar de você… É, eu não era tão frio quanto parecia. Conheci a Gabriela por acaso. Você sabe que não sou muito chegado em happy-hour e essas coisas. Mas foi em uma. Você tinha saído de casa pela primeira vez, e eu tava fazendo hora extra algumas semanas para não ver mais o que tinha… Tá bom, tá… Calma, merda! Eu já… eu já disse, não vou falar sobre isso. Senta, Luíza! Por favor, é sobre a Gabriela. Eu vou falar sobre a Gabriela. Mas não tem como desvencilhar você dela, caralho! Não tem. Você vai surgir. Você sempre surge! Mas eu quero que você ouça, nem que seja uma última”.

23

A pipa subia mais quando o trem passava. Manha. Sabia bem quantas pipas perdeu pro trem. Tinha que manter carretel na lata e longe da lama. Se lama pegasse na linha, fodia o cerol todo. Era vidro moído em saco preto de lixo. Colocava garrafas velhas de cerveja que roubava do boteco e quebrava com pedaço de pau – viu fazerem uma vez e aprendeu. Misturava depois cola e colocava na mão e escorregava a gosma de vidro moído de garrafa de cerveja velha, de bêbados velhos de botecos moídos, com cola, pela linha que mantinha esticada, correndo perto do trilho entre duas árvores e um poste. Depois era só ter cuidado pra empinar, nem mais com o trem, mas que a linha costumava ser a mais cortante do aglomerado das casas da beira da linha do trem. E isso já era muito.

O trilho vibrava quando o trem ia chegar. Era manha também. Na verdade a casa tremia, o vidro tremia, a TV tremia. Mas era assim de manhã, acordava e levantava do chão e descia pelo canto da escada de dez degraus que sua mãe montou em cima da casa da mãe dela que montou ao lado da que era da mãe dela. Descia de dois em dois – nunca ouvia os berros da mãe – com alguns trocados amassados no bolso da bermuda velha para comprar fósforos,

um isqueiro, dois maços de Hollywood, duas trouxinhas, três garrafas long neck de cerveja e três pães franceses. Eram cinco em casa quando ele tinha oito. Mãe, vó, os gêmeos e ele. Ele não sabia quem era o pai dos irmãos nem se era o próprio pai que nem sabia também. O pai devia trabalhar em caminhão. O pai do menino que morava do outro lado do trilho trabalhava assim, quase não o via, só às vezes quando acordava no meio da noite com o caminhão. O menino dizia que via o pai pela grade da janela, ele era careca e sempre tinha cara de sono e beijava a mãe e passava a mão nela e apertava os peitos e passava a mão na bunda e arriava as calças e ela chupava ele ali na frente mesmo e descia a calcinha e pedia para enfiar tudo e depois entravam e o pai tomava um banho e um café e ia. Mas não acreditava não, aquele menino era caozero. Disse uma vez que o cachorro dele era manco porque o trem o atropelara. Mas sempre que essa história passava na cabeça via o velho que morava lá na ponta, o antes e o depois. O velho dizia que queria, mas foi acidente, é o que acham. Tinha seis ou sete, e o velho tinha tudo pra fora. O cachorro parecia mesmo mais forte, mas isso não tornava o menino menos mentiroso. Era o certo, o do outro lado era o

mentiroso e o da outra ponta do velho era o que confiava. Ele que arrastava para ver os corpos que se estendiam perto do valão, furados e com formigas, alguns ainda sangrando. Aos poucos aprendia a distância e a arma usava pelo sangue no chão, pelos furos no corpo. Ele, que roubava garrafas vazias para quebrar e fazer cerol, passara a roubar cheias, no balcão mesmo, não mais escondido entre os bêbados. Precisavam da cerveja, da cachaça, do gim para molhar a boca seca da maconha que fumavam como prêmio por manterem as pipas no alto. Fazer isso ou qualquer outra coisa não fazia muita diferença. Um dia poderiam ser mais um com furos, formigas. Ou não, era só não ser otário. Era fácil a pipa, o baseado e a cerveja.

E tinha a manha, de cima da casa, via a ponta e sabia bem donde viam os carros, o que eram e quais as viaturas, quando samango, macaco, filho da puta de farda brotava, a pipa embicava pra ponta oposta que ficava e era o alerta ao vigia que corria e dava a ordem para os outros e a boca fechava e quem veio comprar ficava ali com seu dinheiro e eles sem vender. Era trabalho de risco. Por isso, mantinha perto o morteiro. Dia de pouco vento, soltava o morteiro. Só queria era a tranquilidade de ver a linha do horizonte por cima da linha do trem uma vez e se manter com sua linha de pipa além da linha das comuns viagens

que diziam ter com o baseado. Só faltava foder para se ser homem, sentia isso aos dez.

24

Ela me recebeu com abraço forte, firme, não eram dias bons e sabíamos, e o abraço estendia. E buscávamos pensar em outras coisas que não eram possíveis se pensar em pensar mais. “Belo vestido”, “e o trabalho”, “e a vida” e rimos risos falsos antes de decidirmos sentar ali, debaixo daquela árvore do parque que nos vira e que contou tudo a todos. Fazia calor e, por baixo dos óculos, a brisa do mar invadia os olhos dela e do salgar da briga vieram doces lágrimas torrentes e berros silenciosos que só ouvimos: “não sorri assim”, “não volte”, “por favor, não volte”. E beijou como quem beija um cadáver e abraçou como se fosse morrer, e fomos em silêncio de volta. Subindo escadas. 

Amo a ilusão de amar um fantasma.

Sei bem, era quarta-feira.

E parece que volto àquele bar enquanto as lembranças transformam o branco da sala de espera nas luzes disformes e fracas daquele bar a dizer em sorrisos e goles de uísque, e gestos dos dedos finos de esmaltes vermelhos, a mexer no cabelo e passar para trás da orelha e se ajeitar na cadeira.

E o carro era pequeno para nossos relatos, e contou que um dia ele parecia diferente, não diferente de visual, de jeito ou nada. Só parecia igual para ela. Isso era diferente. Convidou-o para sair e ele disse que não dava e ela questionou e ele disse “coisas minhas, meu bem” com um sorriso diferente e ela disse se era problema e ele “não” então “coisa especial” e “talvez” e “outro alguém” e “talvez” e o sorriso dela se desfez e ela insistiu e ele disse que não dava mais e quando virou as costas ele pôs a mão no ombro dela e “você sabe, amor, você sabe” e ela foi chegando o rosto perto e ele olhava fixamente e ela o beijou e o beijou como quem beija quem se quer beijar e ele se deixava beijar até afastá-la com as mãos e repetir “você sabe, amor, você sabe”.

Ela só ama quem não a quer mais.

Dali o carro continuou o caminho na chuva em linha reta na curva e de frente com aquele e caindo ali e acordando no hospital.

25

É solitário isso aqui. E ela dorme na cama, em paz de quem esqueceu do amor e do ódio e do mundo e de tudo que depois de mim não valia a pena.

Talvez fosse hora de comprar anel e casa e pedir em casamento e ter filhos e ficar velho.

Gostaria de saber agora o que meu pai diria se soubesse disso. Tudo era tão obsessivo para ele. Papai me arrastou pela mão um dia, mão enorme, mão pequena. E a mãe chorando. E atravessamos a cozinha, ele disse algo pra ela, dedo em riste, e me jogou dentro do carro. Saiu como louco, ultrapassou sinal, quase pedestres, correu. Primeira para segunda, de terça a domingo. O céu mudou e mudava a cada passo, a cada nuvem que prestava atenção, a cada cachorro ou rosto que tentava formar olhando para elas. Tinha medo de olhar para meu pai, tinha medo de pensar em como minha mãe ficou – então surgiu o zoológico. As cores belas e simples, animais de plástico na porta, fila e pipoca – mundo novo. Havia macacos de todos os tipos, pássaros de cores sem nomes, leões dormindo, águias como galinhas, famílias inteiras. Meu pai corria – eu, em sua mão – sem me ver. Parei – camelos. Eram camelos, como no deserto! Tristes como um deserto. Solitários em seus olhos. Areia em suas costas. Mãe e filho, como eu e ela em casa. Ele me fez correr – por um longo corredor, gaiolas, gaiolas – pelo verde. Algo aí lembrou a mãe. Não me lembro de chorar. Nem por ela nem por nada naquele dia – relacionamentos não eram meus, nem camelos.

Ela riu quando disse isso. Ela se identificou, acho, com os camelos.

Era frio, quinta, acho. E lembro do jeito como a campainha tocou. Era o que havíamos marcado no fim de semana anterior. Mas ela chegou antes da hora e vestia um casaco, seus cabelos presos, uma calça e um tênis. E via me aprontar e sorria e dava opiniões e dizia que parecia que ia casar e ela se dizia ansiosa para chegar ao cinema e ver o filme em riso e choro e raiva e alegria.

E deitava no meu ombro e deixava meus dedos correrem pela coxa. A mão me segurava firme e era cruel o jeito que ela sorria e o tom de voz e o modo como isso sempre me fazia sentir falta de esconder o amor que fingia por aí, enquanto dormia em sonhos profundos que não descansavam mais. Ela parou em minha vida enquanto se apressavam como os que se apressam ou se acomodavam os que se acomodam. Quando a dor nos fazia sempre mais cinema. Era drama familiar, e isso envolvia alguma ferida ainda quente, e ela parou de mexer na minha mão, secou os olhos que insistiam em não secar. E não secavam e eram mais fortes e mais fortes e mais fortes e saiu da sala. Guiado por sombras a segui, os olhos estranharam a luz de verdade e a encontrei na porta do banheiro, me abraçou e segurou forte meu corpo e passou as mãos sobre minhas costas e sumiu navegando no que gosto de chamar de alma. Foi quando disse das brigas com a mãe, da omissão do pai. Os pais moravam longe dali, numa cidade nos limites do estado. Ela não falava com eles desde que se firmou no emprego e não precisava mais de nenhum dinheiro para bancar a faculdade. Os pais brigavam desde sempre e não viam algo bom em estar juntos, mas eram desleixados o suficiente para continuarem casados.

Disse uma vez vinha do colégio feliz por ter tirado nota boa em prova difícil e vinha de sorrisos e cantarolando em voz tão inocente o futuro – que queria voar e ia ter asas e ir pelo mundo e pilotar aviões e ser aeromoça e ter um caça e ir para o Havaí com ele. Sempre quis voar. E sentava no chão da casa e na beira da varanda e seus olhos cinzas olhavam tão azuis o céu e suas nuvens e seus pássaros. Ela quis ser um e voar e voar. E contava isso tudo para um pai estressado e sem tempo e que havia brigado com a mãe que disse que era tudo bobagem e sonho idiota e tantas outras coisas e no meio de tudo apontou um mendigo e disse “seu futuro”, por brincadeira. Naquele dia, a inocência da voz morreu, e o azul dos olhos cinzas descia em lágrimas torrenciais enquanto ela desejava com todas as forças que o

pai morresse ou tirasse aquilo da cabeça dela ou simplesmente pedisse desculpas e ajudasse ela a voar de novo. Naquele dia ela planejou seu voo. Sete anos depois ela sumiu dos olhos sem céu de seus pais.

O pai sempre estressado não tinha tempo pra vida. Vivia da correria e dos telefonemas e o tec-tec da máquina de escrever que vinha de trás da pilha de papéis, era uma sombra no fim do corredor. O pai lhe era um tanto assustador.

O pai lhe fora um mito. Uma mancha, uma invenção esquecida. Uma árvore velha de raízes tão cheias de pragas que não se sabe o que fazer. Cresceu à sombra do desconhecido.Noites e noites de distância ao lado – portas fechadas. Era um, era outro. Eram estrangeiros ali.

A mãe sempre lhe fora uma lenda. Um mito. Uma foto muito apática na sala com ela tão pequena no colo. Uma lembrança inexistente tão desbotada que os anos cravaram na mente dela. A mãe, tão magra, de ossudas mãos, rosto morto, segurando ela tão firme, como um fantasma sob os ombros dela, um motivo de as pessoas cochicharem. A mãe lhe fora apaticamente mítica. Não há de se achar mítico o fato de aquela mulher morta sorrir para os vizinhos e aparentar sempre tão jovial nas festas de amigos.

E ela ali, sentada na escada da saída de incêndio, em meia-luz, contando sua alma. “Mas o que mais me dói hoje durou pouco. Minha vó por parte de pai ligou um dia, e disse de saudade e dizia o mesmo, mas sabia que não passava ali porque não queria, era perto do colégio. Não tinha ânimo. E disse rindo um riso gostoso que estava se sentindo mal e queria ir ao hospital e passei o telefone pro meu pai. Minha vó faleceu naquela tarde. No carro do meu pai, como que dormindo. E não a vi, não tive âni…”

E ela chorou, e parecia humana, e agora me parecia mulher, e era ali para mim um complemento do que sempre fui, e ela olhava para o outro lado. E segurei a mão e ela olhou e sequei os olhos, o rosto e os lábios onde as lágrimas paravam. E a mão ficou ali, e os olhos dela fechavam, e o silêncio nos gritava que éramos dois desconhecidos que sabiam muito um do outro. Os olhos não se perdiam mais e as mãos saiam da manga para descer em meus cabelos. E nos beijamos longa e lentamente e queríamos conhecer nossas bocas e lábios e línguas e cabelos e rostos e saber como era a aparência da nossa alma tão comum. Esse foi o dia que começou.

No dia seguinte ela escreveu poemas em minha virilha.

26

“Saí do trabalho e ia pegar o carro quando me chamaram, falaram que ia ser coisa pouca, só para relaxar. Sentei pensando já em que desculpa arrumaria para ir embora. Aí eu olho pra frente e vejo o sorriso dela. Ela passou uma mecha de cabelo por trás da orelha e soltou um ‘oi, sou a Gabriela’. Parecia que ela já sabia que quando olhasse para ela iria puxar assunto. E

daí? E daí que ela me olhava nos olhos, Luíza! Ela não fingia comigo. Seja lá o que ela fosse, ela era.”

27

E Gabriela era estudante, gostava de arte, política e cerveja e trabalhava como uma espécie de assistente social. De algum modo, seu pai tinha acertado. Um dia ligou convidando para um café no meio da manhã, do nada, e tinha um jornal na mão quando cheguei e apontava para uma nota quase escondida – “menino traficante é queimado vivo por inimigos”.

“Ele tava quase saindo. Nem foram esses que chamam de ‘os inimigos’. Não tem certos ou errados na vida. Você tem tempo, vida? Queria te contar isso. Sei lá, é algo que… ah, você sabe. Eu não vou conseguir deixar isso comigo. Preciso que você ouça.”

Ela segurou forte minha mão. O tempo não existia. Olhava fundo nos olhos dela e via a Luíza e via Gabriela e via o menino. E via as pipas, garrafas, caminhoneiros e corpos e manhas e trilhos. “Você acredita, não é, vida?” Eu era a vida dela quando ela se empolgava. Ela sempre estava empolgada. “Só faltava foder para se ser homem, sentia isso aos dez.”

28

Quando tinha dez anos, as ruas eram cinzas, não dos olhos que viria a conhecer de tão perto, mas cinza de chuva e das paredes e das ruas. Havia uma mangueira logo na casa da frente e quando ela estava carregada esperávamos os dias de vento forte ou a oportunidade para derrubarmos com pedras. E quando ventava muito, fazíamos guerrinhas de mangas. Cortávamos de leve a casca da manga, até ficar só amarelo. Quem fosse atingido ficava com a marca. O menos amarelo ganhava. Ou não. Mas quando o cinza e o amarelo viravam verde e flor, gostava de ver osfilhotes de bem-te-vi carregando o céu enquanto aprendiam a voar.

Minha infância foi escapar dos camelos, dos relacionamentos. Um dia ia tomar coragem e enfrentá-los. Mas faltava tanto para ser homem, sentia isso aos dez.

29

Faltavam só cinco dias para o amigo, de sempre, das mesmas peladas e cervejas de sexta-feira, dos carnavais pulados, dos réveillons brindados, das longas conversas, dos beijos roubados, das transas casuais, daquela conversa sentado na pedra com aquela menina quando em silêncio tomou a mão dela desajeitado e deu seu primeiro beijo, aquele que quando criança subia um morro de terra solta e poucas pedras e mato perto da casa de seus avós e descia de lá escorregando sentado num pedaço de papelão com um sorriso que comia o mundo, aquele que quando os pais da namorada saíram de férias aceitou o convite para entrar e teve lá pela primeira vez um prazer tão puro, aquele que driblara o goleiro e chutara pra fora, aquele que era o Dizinho onde morava, aquele que ouvia tantas lamúrias dos amigos, aquele que sempre tinha uma palavra bonita na boca, aquele que brigou feio com a Débora, filha da Dona Glória do 203, ano passado e terminaram depois de três anos de namoro. André, cara incrível, estava com algo raro no seu sangue. Faltavam só cinco dias. No começo era só o rumor que ouvia da conversa entre as enfermeiras que escapava o além do som dos equipamentos e a dor que sentia no meu lado onde Gabriela brincava de brincar. Devo ter quebrado alguma costela. Devia ser um braço, uma perna, todos os dedos, o pescoço. Eu devia estar morto e não aqui deitado, sem Gabriela tocando onde dói hoje como ela sempre tocava.

André ria e ria ao ver toda a espuma derramada no chão e ele escorregando na maca e seus amigos pelo chão, caindo pelos cantos, fugindo dos enfermeiros e ria dos que caíam também e vinha à mente do menino que foi descer do morro com papelão em dia depois de chuva e acabou no pé do morro coberto de lama. No primeiro dia foi criança. Na madrugada seguinte, o pânico se deu no hospital, tinha sumido. Quando voltou, cheiro de mar. Soube pelas palavras ouvidas do corredor das lágrimas alegres ao sentar naquela pedra. Nos olhos dele, viam o olhar da primeira paixão e da vontade que teve de se atirar ao mar e nadar e nadar e nadar e levá-la nos ombros. Protegê-la de algum modo das ondas que quebravam. Ela morreu seis meses depois daquela lembrança, quando um ônibus avançou o sinal e acertou em cheio a moto em que ia na garupa com o pai. Naquela pedra foi adolescente, começou a se tornar um homem.

30

“Em suas mãos virei homem, sei, mas no fim, fui só menino e de menino não passo. Você sabe, Luíza! Se continuasse com você, continuaria assim, sozinho. Você nunca olhou para mim como ela me olhava. Perdão, perdão mesmo. Eu gostei muito de você e tudo. Rolou a atração, rolou a paixão, rolou o tesão. Mas-eu-amo-a-Gabriela. Mas ela ama o amar dos outros amores, Luíza. Ela é outro novo amor que esqueço todo dia. Não sei mais o que dizer quando a vejo, não mesmo. Não quero esquecê-la como te esqueci e nem amá-la como nunca te amei.”

31

Gabriela olhava para o jornal, olhava para o café. “Quando ele tinha 11, ele perdeu a mãe. Ela teve uma overdose de cocaína.”

32

O amor se foi

Já que eram anos e anos e anos

Ficou seu silêncio toda vez que falava

As mesmas bobas ideias e planos e anos

e anos e anos

Após quatro semanas, semestres, meu

amor virou rotina

Amor tão só seu virou ao pé da letra

E só.

Seria tão mais fácil se ainda me largasse para voltar para aquele alguém. Não consigo mais ter que inventar novas desculpas para voltar. Ouvir tantas outras suas. Diz algo, contradiz depois. Volta atrás e ainda parece tão sincera. Não falo nada, resguardo. E sempre se entregando, para mim, para você mesma. Para outro alguém em minha mente. Nas rimas bobas sem sentido, já tão batidas, tão repetidas. Sei que achou que foram para todas, para seus múltiplos sonhos.

Aí me corta com seus sorrisos largos de notas musicais, de tão doces sabores. Sabores experimentados tantas vezes, em tantas aventuras que faz o prazer de me contar, à beira do ouvido, noite após noite. Acorda chorando, sozinha, sem querer ver ali o que estava ao lado. Então discutimos tão sem sentido, nunca disse nada, nunca disse nada que não fosse verdade. Nem você.

E se muda de novo. E volta com novas roupas, novos cabelos, novas cores. E suas mãos voltam, e de onde nunca saíram. De onde nunca queria ter saído, de um sonho que tive algum dia, finito como se não tivesse iniciado. Seria tão mais fácil se largasse de me largar. Já não quero mais inventar novos amores de horário comercial. E só te ver do outro lado da rua.

33

“Posso?”, queria estar. Ela sorriu, no íntimo, era bem mais que estar. Era o inoportuno hábito que tinha. As vãs expectativas para um amor novo, um rosto novo a tomar entre goles de café.

E estava, com seu maior decote, já que sabia como tê-los e que podia. Com seu melhor sorriso, com seu sutiã vermelho na fenda do decote, na alça da blusa preta.

Bebia lentamente, do jeito mais levianamente provocante que podia. Era um novo amor a tomar em goles lentos. Cruzava as pernas por entre a saia, analisava, alisava.

Olhava como quem faz queimar, como piromaníaco. Suas mãos se moviam devagar.

Ela estava.

Queria mesmo saber por que acordar e estar linda.

Queria estar, sentar.

Queria um dia

(qualquer

porém

o mais

perto

que

for

pos

vel)

te ver de novo e em seus longos olhos cinzas.

No seu sorriso

Que

Perde

Minhas cores

No corpo que no dia mais curto

Das horas mais curtas

Foi meu

E esperar com os mesmos olhos

e com tudo que hoje é seu.

Seu ciúme é minha farsa.

Seu rosto, meu plano.

Seu sentimento, pura suposição.

Seu ciúme é minha farsa, amor.

Sou farsa, amor.

Mantenha sonhos a salvo. Longe de mim, longe de você. Tranque-os. Guarde junto do amor que dispensei para ti, na velha gaveta. E leve junto outros tantos amores que um dia achei amar. Guarde os rostos deles, os gestos, a voz. Se guarde lá, seu sorriso, seu olhar. Mantenha o sonho, em você. Esqueça onde está, onde estará, o que é. E me mantenha.

Esqueça o que disse, esqueça o outro alguém. Ou tudo que ele disse e os outros eus. Me mantenha. Nós não somos plano futuro. Hoje vejo isso. Me leve para onde você acredita. E me faça ser o que tu queres. Me leve. Me faça, me faça sonhar. Até que perca a cor e decidamos as novas cores que isso deve ter.

34

Não acreditava no retorno deles – seria tão simples, demasiadamente simples – seria cruel. Sinto falta de casa, da minha cidade, de reconhecer no ar que nunca senti falta. Reconhecer quando ela se deitava na cama pelo som, pelo perfume. O cabelo tão diferente, ela era – sempre foi – outra. Minha. Mas, quando tatuou aquelas palavras, não era pra ninguém, era pela paz  que dava pensar no retorno. Na crueldade de pensar. A palavra dura após

carinho, algo dito que soou tão rude.

Mas ela lia os sons, sempre entendeu. As mãos dela traduziam à medida que corria pelo peito, passeava doce pelas costas e na nuca. O beijo já não era tão simples, era dona. Se era cruel ficar, mais difícil sair de casa para se apaixonar.

“Quando descobri que era fantasma, o teto caiu. E tudo foi encolhendo. E não era mais mundo. E a solidão agora é nova. Note. Me usou, e eu te usaria tantas e tantas e tantas. Note. Note-me. Me use uma ultima vez, finja que me ama e diga coisas bonitas. Me faz ainda buscar seus olhos em todos, procurar um sorriso que não me sorri. Queria poder te dar um porque rir de novo, queria ser mulher o suficiente para te provar. Mas a incerteza do que você poderia dizer para mim doía mais. Diria que trocou o doce e real e forte e sexual e me deixar assim e buscar o que não foi nada, o que não é nada, o que não será nada. E não sorri! E não seja assim tão você no nosso fim. Sua voz hoje me dói. E você me dói. E sou eu a sua dor, sou eu que te atiro nos outros braços. Nos braços de quem seria diferente, de quem não faria você pensar em tudo que está pensando em cada gole desse café, em cada grão de açúcar que pega com o dedo. E sabia que sentia o perfume e quando pegava na minha mão com lábios tão fechados, por vezes escondidos, sabia que me cortava em duas e era tão feliz e tola e idiota de pensar que não seria assim seu modo fino e idiota de me abandonar. E quando abria o sorriso e me olhava nos olhos era falso e idiota e dizia que era a sua menina e passava a mão de leve nos meus cabelos e me trazia perto. E previa você dizendo que não me amava mais e que se fosse mais perto talvez e que a ama e a quer e a tinha nas noites e a via nos dias e já guardava a minha resposta e eu sei, e eu sei. Larga ela. Larga ela. Eu tenho muito mais ciúme que ela! E sinto tudo isso! Sinto seu amor no ar. Buscava seus olhos em tudo. E você está me usando de novo. Não sorri! Sua voz hoje me dói. O teto quer logo cair. A cidade quer toda cair. E note! Note! Note que eu queria te fazer rir. Que queria que fosse sempre meu. E queria ser a idiota a ser abandonada. A ser seu café, a ser seu açúcar. Eu queria ser logo você. Vai, note! Note que você é o meu fantasma! Que quero ser sua alma”.

35

Como sempre a vi nos braços de outro alguém. Foi como imaginava. Exatamente como. Tudo sempre parece repetir. E a luz era tão bela, e eles também. Não cabe nada além do desistir. As desculpas também eram iguais e o modo de sempre notar como eu notava. Perguntou se tinha me sentido mal ao ver aquilo tempo depois. Menti, como sempre, e disse que não, que o sorriso que ela exalava era maior que a dor que não sei se ainda existia real ali. Complicado ver que quando passa, tudo passa. Sei que ele era só “one night stand”, um alguém como Gabriela costumava ficar por aí. Ia passar. Mas vinha um ciúme sem sentido. Não havia sequer algo que possam cobrar um nome entre nós.

Com Luíza, o fim foi mais direto. Sem nomes ou conversas. Da primeira vez, falamos o que não devíamos e ela foi embora. Eu trabalhava demais e tomava uns remédios estranhos. Ela era sistemática e um tanto bipolar. Ela tinha seus problemas, é claro, e vinha de anos e anos. A mãe era uma versão envelhecida, como espelho, que ela odiava. A sua própria imagem sempre é odiável. Soube por um amigo em comum uma vez que quando elas brigavam, elas brigavam. Eram pessoas fortes. Ninguém cedia. Luiza era convicta e sabia bem o que fazia. Após a briga e os dedos em riste e as palavras que jorravam dos lábios, cortando os ouvidos em duas partes sem sentido que não ouviam mais. Eu não ouvia, só gritava e retribuía, e ela disse que não prestava, que era um filho de uma puta, um merda, um vagabundo, um atraso, um idiota.

 36

Da segunda vez, a culpa foi minha. E tinha sido tão perto de quando voltamos. Só disse a verdade, e a verdade doía sempre. Disse que não dava mais. Que era só desejo. Era mentira no fundo. Eu ainda a amava em algum lugar, mas tudo encaminhava para piorar. E eu estava lá em tudo que disse e em tudo que ela era. E eu era tudo para ela. E quis não ser nada. E quis ser o ódio, as fotos rasgadas, o telefone apagado, o e-mail apagado sem ler, o contato bloqueado, as cartas rasgadas, os presentes numa caixa deixada na porta sem aparecer, junto de roupas que ficaram, devolveu as saudades, as boas lembranças e modo como se beijaram quando ela voltou pra casa. O modo como se conheceram, a primeira noite, o modo como ela o conduzia na cama. Era incrivelmente excitante, apesar de tudo, era incrivelmente excitante. Guardados em uma caixa, entre mentiras.

Na segunda rodada já havia confessado: a brincadeira foi forte demais com ele. De ilusão, com ele em encanto, se passaram alguns meses, dia a dia que lembrava e enumerava entre os goles. Era pura atração. Sempre disse da mágica do corpo dela – foi difícil dizer. Também o fora, mas disse que não era ele, não era a hora. O tempo pesou. Diz que choveu. Mas a hora foi cedo. Mas ele já tinha outro olhar e olhares e olhares. E era tão perto. Não adiantava mais se arrepender.

Pensei em correr, bater à porta dela, suplicar, mandar flores, esperar. Nem dá pra repensar. E o barulho irritante que anuncia o dia. O silêncio era só meu e era tudo. Por entre as cortinas que já foram amarelas, que já viram todas as cores, só se via névoa e sujeira da chuva. A chuva parou, pelo menos. Definitivamente não estava lá. Só as roupas no chão, o cheiro no ar e a voz que ainda rondava o apartamento. Já não libidinoso, já não libertino. Só fantasmagórico. E os lençóis desarrumados sobre a cama. O travesseiro como companhia, ombro amigo, grande amor. E o que restou do silêncio. Não estava mais lá.

Fique, sonho bom, não deixe que te roube. Que te arraste só pela voz. Ainda existe o que sonhar, talvez.

Insone – não por querer – sento, esquecido, em algum lugar, cinco minutos antes de acordar. E saio, e entro, e abro, e giro e deixo que chova, chova, chova, chova, chova. Pelo corpo, pelo cabelo, pelo pouco de alma que escorre dos dedos, pela voz que geme em meus ouvidos. E que deixo invadir. Pelo menos até o fim da espuma.

Cabeça dói, talvez seja um sinal. Costume de autoiludir.

Tal qual sonho em manhã nublada. Sonho que morreu no tempo. Foi uma palavra ríspida, uma ironia, às costas, às costas.

Os lugares, a caçada, a sala de espera. Seria tão menos solitário. Ainda tem as chaves desde aquela terceira segunda noite, quando invadiu minha cama.

Desde que a cama esvaziou, todos, todos são tão reticentes. E eu, reticências. E pensamos em entregar os pontos.

Era hora de voltar.

Era o bar de sempre, onde costumava ver aquele onde se via em algum outro dia. Ali, ela e seu espelho e a discussão de um passado tão futuro.

Sobre o amor morto, sobre a vida morta.

Pensara até na morte por ela mesma e para ela mesma e, ouvi dizer, após poucas sessões, o analista indicou-lhe a começar a beber consigo.

“Tudo por causa dele?”

“É.”

“Besteira.”

“É”, e bebia.

E tinha a intenção de ser assim, viver assim. Era grande mistério e brincava de apaixonar: os olhos corriam em direção qualquer, mas me perseguiam com aquele modo único que pode se perseguir. E dizia! E dizia que não apaixonara; que nunca se apaixonara. Nem eu. Os outros que sim. Seus dedos finos a jogar lentamente cabelos vermelhos multicoloridos por trás da orelha e depois descerem num movimento só – que é dela – para descansarem próximos à boca, aos lábios simples e brilhantes, lábios e lábios. O jeito que anda, e pousa a mão sobre a cintura. O tom que fala, o tom que olha. Os olhos dela perseguem. E ela persegue, sabe usar seu corpo, todo. E sabe o que é. E ela é.

“Não estou pronto para desistir de amar quem quer e ser ignorado”, ouvira uma vez.

Ela se achava graça, e ria com o corpo todo. Nem chocava, acho que foi o que pensei. Ela desprezava.

Só ouvia agora. Não conseguia falar mais, nem olhar para as gotas no chão. Disse: “Você foi o motivo.”

Tudo parecia tão diferente na hora da manhã.

 37

“Quer saber de uma coisa, Gabriela?”

“Hum?”

“Ela é aquela.”

“A Luíza?”

“É”

“Parabéns, vida. Ela te largou semana passada… Como agora você chegou a essa brilhante conclusão?”

“Sei lá.”

O silêncio nos parava. A verdade era a cerveja que colocavam nos nossos copos enquanto comíamos besteiras que colocavam nos nossos pratos.

“E o Felipe, Gabriela?”

“Na mesma.”

“Ainda?”

“Ainda.”

“Fala com ele.”

“O quê?”

“Algo como ‘eu não quero nada com você. Para de me perturbar’. Entendeu?”

“E toda aquela parada de você merece mais que isso?”

“Isso soa meio forçado.”

“É ele que força demais. Aliás, nem te contei o que ele fez semana passada.”

“Hum?”

“Na quinta era aniversário de algo entre nós…”

“Do dia em que você supostamente deu mole pra ele?”

“Caralho, que cara chato. Na terça ele me trouxe flores. Mas não era um buquê normal. Era uma porra enorme, e ele me entregou aquilo no meio da rua. O porteiro agora, sempre que me vê, manda aquelas piadinhas retardadas de casais… ‘não se esqueça de mim pro casamento’ ou ‘e é um cara de sorte’.”

Gabriela irritada faz caras engraçadas. E podia imaginar bem o que ela diz. Como um filme em minha cabeça. Gabriela era uma mulher cinematografável.

“Gá, fala com ele.”

“Se eu falar, vou acabar brigando feio com ele. Você sabe como ele é.”

“Sei, sei. Eu noto na faculdade. E sei também como você é.”

“Fora o clima chato que vai ficar no escritório. Ah, quanto a sua ironia, vai se foder…”’

38

“Se estou apaixonado por uma ilusão, um fantasma, espero que esse sonho me seduza até que suma o passado. Ai, Luíza, um dia poderei só deitar ao lado dela e sussurrar isso tudo no ouvido dela. Mas lá, eu recostava na parede e sorria de canto de rosto enquanto o olhar me comia vivo e parava na minha vida quando não sabia com que braços poderia abraçar. Não tive braços, não tive corpo por muito tempo depois de você. Mas ela parou um dia quando me seduzia e dizia ‘é só outra besteira’.”

39

Naquele mesmo bar, desde o primeiro olhar. E ela chamava o garçom e pedia um chope, e o silêncio impera na mesa, ela mexe no porta-copo e agradece com um sorriso e o silêncio e me oferece um gole. “Ainda acho melhor você ter uma longa conversa com ele. Quem sabe assim ele para com essas idiotices ou pelo menos se toca, né?”

“É?”

“Nunca se sabe.”

“É complicado chegar na cara dele e falar ‘oi, eu não gosto de você igual. Por favor, não goste de mim’.”

Sempre me soou familiar, hoje tudo em mim é essa frase.

40

E era familiar no Recanto da Santa, a mãe morrera e ficaram os dois filhos a lançar redes. E aos poucos fingir crescer. E de fingir em fingir se viram adultos. E o mais velho aos 17 já tinha uma filha com uma menina de 14 que morava ali perto. Casaram-se sem cerimônia e bem antes do casamento. Ela estava sentada à beira do rio, ele passando de barco, sozinho porque o irmão teve que ir longe. E foi um olhar só. Eles sabiam bem o que queriam. E podiam. Quando o barco parou na margem, ele já estava pronto. Ela notou e tomou como água que banha, e banharam no gozo da juventude, na lama, no prazer que o sexo lhes dava por não terem nada o que falar. Nove meses e uns atrasos depois, nasceu a menina. E pouco depois trocaram as primeiras palavras formais: “Sim aceito”. Não em igreja, nem cartório, mas por honra da mãe.

41

Por honra de algo que no fundo não sabia bem, mas que repetia, o menino da notícia saiu de casa. Um dia, simplesmente não voltou. A vó deu pelo pior e esqueceu. E ele andava ao léu, entre seus foguetes, até que recebeu a arma. Peso que estranhou na mão, que era desconfortável aos dedos. Aos 12, pela primeira vez, virou bandido feito e descobriu que as mãos se adaptam às armas.

42

“Naquele dia que ela saía do banho e disse que não dava mais, ela me abraçou. Mas sem ser Gabriela. Ela era você. Você que sempre se despediu. Ela sempre voltava. Eu era o tolo que ela perdoava, dizia. Sempre fomos tão distantes nesses poréns, Luíza. Sempre. Talvez, se não fossemos assim, não seria um estorvo pra ela. Sinto falta do jeito que ela voltava. Dos cabelos novos, dos sorrisos novos. Que merda, Luíza. Que merda!”

43

Botou-lhe um revólver na cabeça e tirou voz, memórias, palavras de ódio e amor, números, contas e o telefone. E não disparou gatilho, encarou com seu olhar mais doloroso. E viu que sentiu medo, e intimidou. E viu correr de medo, e correr, e correr. E o. suor frio, frio, frio aço a espiar. E aquele escondia o revolver que botara na cabeça e escondia pelos bolsos tudo que tirou. E corria, e suava, e escondia, e ria, e chorava, e o suor, e as lágrimas, e o riso. E o pesadelo que não acabava. E o pesadelo que não acabava. E o pesadelo que não acabava.

44

“Eu tenho mais ciúme que ela! Não é o que ela escreveu nisso aqui. As minhas palavras e tudo que disse nesses dias foram para ela! Tudo! Meu ciúme não era farsa. Mas faria diferença? Foi erro deixar ela bater aquela porta. Ou erro maior foi ter terminado com você, Luíza. Seria só eu o fodido.”

45

E era péssimo quando chovia. A lama descia até o rio e não dava para pescar direito. Os peixes sumiam. E era péssimo quando chovia. Pouca terra para tanta gente. Eram dois barracos de pau-a-pique que fediam. E os pelos surgiam e se descobriram adultos, unidos e reproduzidos sobre a graça de Nossa Senhora, e os pequenos rastejavam na lama, enquanto se puxava e penetrava lá, dentro, dentro e os gemidos anunciavam. Mais um. Mais um. Mais

um. Era ótimo quando chovia.

46

“Foi melhor, Luíza. No fim, foi melhor. Foda é provar isso. Mas, no fundo, os olhos dela me fariam aguentar mais um fim. É, eu sei, eu sei. Eu me esforço para isso. Fazer o quê? O que não faço pela Gabriela.”

47

O corredor do hospital era eterno, o braço coçava na tipoia. Em um daqueles quartos estava ela. Era culpa minha. A ideia da viagem, o acidente. E tudo que criamos. Enfermeiras fofocavam e fumavam numa sala à parte. Um homem consolava uma mulher que chorava copiosamente – “não foi sua culpa pelo André. Você sabia, Débora. Ele não sofre mais.” -, abri a porta. Flores. Em um cartão, dizia que estarão na cidade para o que precisar com a assinatura “pai” e “mãe”, que ainda faziam tipo e nessa época já demonstravam o ódio que mostrariam ao tentarem matar um ao outro alguns anos depois. Tinham flores de amigos e narcisos com um cartão do Felipe: “Espero que melhore logo. Te pago o café que estou te devendo.”. Filho da puta.

48

“Chamei ele para sair hoje.”

“Como assim, Gabriela?”

“Ué, chamei.”

“E a coragem?”

“Li no horóscopo que dava.”

“As coisas mudam, Gabriela.”

E a vi olhando para o café sem expressão. Os olhos se enchiam de lágrimas que ela conseguia segurar. Amassei o cartão de Felipe e joguei no lixo. Gabriela dormia, máquinas quebravam o silêncio, e o soro caía.

“Cheguei e perguntei se ele queria sair. Disse que não. Pareceu hesitar por um momento. Perguntei se haveria algum problema. Disse ‘não, não, nada de mais’ e para não me preocupar. Questionei se era algo comigo, disse um ‘não’ vago. Perguntei se era ela, disse novamente que nada de mais. Perguntei se era outro alguém. Ele foi vago de novo, vida. Respondeu ‘também’ e já olhava para o computador e não mais pra mim. Naquela hora notei que ele tinha desistido de me amar, ou que tinha outro alguém, ou ambos. Demorei demais para notar que era ele.” Ela segurava as lágrimas como se não quisesse se separar daquilo.

“Parece idiota, mas perguntei se era inadiável ou se não cabia nem um atrasinho. Ele riu, como se tivesse falado uma idiotice, voltou a ficar sério, olhou pra mim e disse que não, se desculpou. Cheguei mais perto, abaixei um pouco, olha meu decote, vida. Fiz desse jeito e perguntei se era coisa da faculdade, disse que sim. Perguntei se então podia ser quinta…”

“Não temos aula nas quintas.”

“Por isso. Ele continuou dizendo que não. Me ajoelhei ao lado dele. Minhas mãos nas coxas dele, e ele ainda via isso aqui. Perguntei se eram os mesmos motivos, ele balançou a cabeça. Disse que era outro alguém. Acho que ele notou como fiquei. Tentou voltar atrás perguntando se o café poderia ficar para a outra semana. Filho da puta, filho da puta. E filha da puta eu por gostar tanto assim desse filho da puta… Caralho, e ele me amava…”

Horas depois, ela acordou. Seu braço engessado doía enquanto tentava chegar perto, e eu impedia dizendo “Não, não. Fica paradinha”. Me abraçou, perguntou se ainda doía algo, mostrei o imenso curativo e menti que não doía mais. Não sentia mais nada ali, nem quando ela passou a mão como sempre passava. E era isso que doía. Ela parecia se culpar por tudo, pela viagem, pelo acidente.

Disse que tinha tido alta no dia anterior, mas não, já tinha passado horário de visitas. “Se fosse eu, vida, estaria em casa agora, assistindo a programas de fofoca na TV. Você acha mesmo que eu ligo pra você?”, e ria. O mesmo riso doce e venenoso de sempre.

“Tenho que te contar uma história, é de um outro paciente aqui do hospital.”

“André?”

“Esse mesmo. Como você sabe?”

“Enfermeiras falam coisas engraçadas enquanto acham que você dorme. Soube que ele fugiu… Bonitas flores essas… De quem?”

Eram as que ele havia mandado. Um ciúme misturado a medo dela se desiludir tomava de leve a ponta dos meus dedos.

“Sem cartão elas. Mas, bem, segunda trouxeram esse André para cá. Para um quarto isolado, só para ele. Uma enfermeira me disse que ele era um morto que ainda não foi enterrado. Disse que, quando ele chegou, teria, no máximo, mais cinco dias de vida. Desde então os amigos dele estão fazendo desses dias dele os melhores e tal…”

“Eu sei, a história da praia…”

“Segunda, sabe-se lá como, eles entraram com cerveja e instrumentos aqui. O quarto dele virou uma roda de samba. Os médicos nem fizeram nada, não tem outros pacientes aqui. Esse é o andar dos mortos…”

O silêncio nos tomou.

“Sempre disse que éramos zumbis, vida”

49

Quando o silêncio tomava no Recanto da Santa, era sinal que o irmão mais velho saíra. Os anos haviam passado. A bebida vinha forte ao irmão velho. E o corpo vinha à mulher dele. Os seios eram lindos. E não havia outros ali. Quando chovia no Recanto da Santa, era péssimo, e era ótimo o mais velho longe na bebida e o mais novo nos seios, no corpo e no prazer e na lama do gozo dos que gozam.

50

Parece que ainda via Gabriela tomando o resto do café, respirando fundo, olhando para a xícara, para o açúcar na mesa, para a colher e dizendo que foi então que o menino se perdeu. Começou a assaltar friamente, matar friamente para o que pudesse lhe dar momentos de calor.

Quando Gabriela e o grupo que ela participava naquela comunidade tentaram ajudá-lo, já tinha sido expulso da favela. Estava ensanguentado, com um traumatismo leve e respirava com dificuldade. A UTI não era novidade para Gabriela. Quando minha mãe estava na UTI, ela veio me visitar com abraços, e disse “vai dar tudo certo” assim como disse para aquele menino.

51

“Ontem a ex do André teve aí. Conversaram muito. A enfermeira disse que foi uma espécie de pazes, a briga deles foi feia antes. Mas parece que não resolveram grande coisa, não havia o que resolver.”

Foi um jovem inconsequente no terceiro, um adulto realista na realidade que aguardava no quarto.

“Hoje é o quinto dia.”

52

Nas palavras soltas, nos poemas de papel amassado, nos guardanapos, nos cadernos que carregava por aí, na minha virilha. Gabriela escrevia onde coubessem as palavras. E soltas nas costas de um cartão, com letras tortas: “Eu queria saber o que esperar, as esperanças cismam em enfeitar um mundo que talvez continue por vir, em sonhos te vejo sorrir de um jeito secreto só pra mim. Esperando uma ligação que não diga nada, um cumprimento mudo de sensações indefinidas, um sentimento concreto, pretérito perfeito. Você é como o barulho do mar durante o trânsito. Minhas palavras cismaram em viver na sombra dos seus olhos, apesar de tudo parecer bem, de eu ter uma calma que não sei de onde vem, de você talvez, me sinto uma estrela que sonha em ser estrela-do-mar.”

53

Os amigos de André andavam pelo corredor, choravam baixinho pelo corredor, a tristeza passava pelas frestas, pelas máquinas, pelo soro.

“Vida, se eu… você me levará como levaram ele?”

“Você não vai morrer.”

“Um dia vou.”

“Antes de mim?”

“Talvez.”

“Gabriela, acha mesmo que conseguiria esquecer você?”

“Você sempre tenta.”

54

Na tentativa conseguiu, era o irmão velho. Um tiro só e cortou o joelho em dois. Era ruim quando chovia no Recanto da Santa, difícil correr. E se escondeu atrás da pedra e pediu proteção à santa e ao orixá. Os tiros vinham próximos, antes de correr, se enfiando nas calças, sujo da sujeira que fez ouviu os gritos e os disparos. Acabou o legado do pecado que se havia feito. O irmão berrava de ódio, o álcool corria pelas veias que se inchavam nos dedos e tomavam o gatilho, e as balas pareciam se multiplicar, e quando o mais novo desceu ao rio, veio um novo tiro cortando o espelho d’água, e a imagem da coxa sendo atingida corria vermelha rio abaixo. Era o fim. O irmão agonizava. O outro, rindo, recarregava a arma e corria e corria trôpego até a ponte, onde mirou o tiro de misericórdia e a vingança e a alma lavada e a honra de homem. Seria ele e mais ninguém. E o carro vinha, fechado por um caminhão que pensava em casa, e perdia o controle e caía da ponte e o atingia.

Nossas histórias finalmente se cruzavam.

55

“Seus conceitos do que acha importante são totalmente diferentes dos do resto do mundo. Sim, você vai se colocar em primeiro plano e vai deixar alguém esperando. Caso esse alguém queira esperar, faça valer a pena. Você sabe disso. Assim como sabe que irá magoar quem você diz que ama, e não vai ser pouca coisa. E no fim vai acabar por sair gritando o nome dele pelos quarteirões, mas não pense que é amor. Não. É a companhia que ele te proporcionou todos os dias. Seu maior medo é ficar sozinha. Sua maior vitória é saber disso. Você não é bonita e nem é doce, também não é legal, apenas sabe fazer piada na hora certa. Você é diferente do que se vê. E nessa vida o que você quer não é o que traz, e o que traz não é o que sente. Talvez sinta isso hoje, pois, amanhã sempre muda. Você não é constante, portanto, diga para que não esperem obviedades. Mas também não esperem surpresas. Que não esperem nada. Permita que te conheçam, e te sintam. Você não aguenta ser a vida de alguém, é muita responsabilidade para toda a sua insegurança. Já o fez uma vez e quem acabou sangrando foi você, eu me lembro, eu vi suas lágrimas. Se daria a vida por alguém? Desculpe, não conheço todas as respostas. Porém, saiba que é uma romântica, e que eu gostaria que não fosse. Sai derrubando todos pelo caminho e não sabe levantá-los, querendo amar com a força que você vê em livros, mas lembre-se, tem que mergulhar em alguém para isso. E não o faz por medo. E isso não é motivo nenhum para se orgulhar, sequer deveria ser motivo de poesia. De tanto que já conversei com você, de tanto que já te vi sofrer e ouvi suas dores, e ainda cisma em não me ouvir. Espero que finalmente escute

agora. Sai da frente desse espelho, menina, e vai viver o que tanto escreve. E assim, da próxima vez que te ver me encarando, eu saberei que conseguiu e que seus poemas são sinceros.”

As palavras soltas em folhas, no caderno que folheava, que parecia escondido, na caixa sobre a cama. Duro não saber se ela escreveu para mim ou para ele. Ele aos poucos nos tornava mais próximos, Luíza também. Éramos iguais por dentro. Nós 4. 

“Não que fosse algo que alguém imaginaria, mas existia complô, existia vontade e existia amizade. E era forte, sincera e divertida. Essas amizades que você tem certeza de que ele sabe exatamente o que você quer dizer mesmo que se enrole, que se perca, que não fale nada com nada. E ele sabia. Além de saber, concordava e também pensava assim, e disso surgiam as risadas, os olhares e a vontade. Minha. Quando aconteceu, todos disseram ‘finalmente’ e confessaram os planos, pela primeira vez ficara sem jeito diante dele, buscando em sorriso, em toques, em olhares, mais um pouco dela que ele havia roubado. No frio em que a aquecia, os pensamentos que não eram tão retos, tudo parecia tão certo mesmo confuso pela bebida e acessórios. Ela quis cada vez mais o perfume dele em suas mãos, o sorriso perto do rosto, os abraços e as conversas sobre qualquer coisa a toda hora. Um pouco mais dele. Nela. Decidiram sem rótulos mas sabem o que são. Não passam de reticências que nunca sabem o fim da oração.”

56

Estranho como tudo vai fazendo bem mais sentido à medida que se cresce, que se envelhece. O menino não queria envelhecer. E voltou para onde tinha sido expulso por roubar o que deveria vender. Dizia a reportagem que testemunhas o viram armado e atirando e querendo chegar e lhe atiraram nos pés. E ele chorava e parecia que deixara de ser homem e voltara a ser menino, que soltava pipas e corria pelos cantos, enquanto era arrastado. Sabia que iria morrer e a morte não é tão louvável quanto dizem. Colocaram-no em pneus, o banharam em gasolina e acenderam. E o menino era só menino, segurou o choro, olhou para o céu e viu formas nas nuvens e todas as estrelas de que se tem notícia. E era isso no jornal. Sem estrelas. “Você está certo, é impossível mudar o mundo.” Pegou suas coisas e foi embora.

57

“Sem machucados

e curativos no final,

um abraço compartilhado

e sua alma

em um vitral.

Te guardo num pote

te protejo do mal

te faço chuva

te faço vendaval.”

E o tempo passava, e vi tudo voltar ao que era e havia Luíza e havia Felipe e havia os dois. E havia as palavras de Gabriela e a voz dela cantando doce que ecoava pelo quarto, pela fresta da porta, pela beira da cama. E era doce, provocante, lancinante. A voz dela tinha toda a luxúria que todos deviam ter. E não era pra mim. Nem ela. Nem nada. Éramos dois estranhos na cama. Todas as várias vezes, todos os vários experimentos.

58

“E esperei naquele cinema como quem espera toda a vida, que nem aqueles que ficam de longe espiando, como quem não quer nada se aquele alguém aparece. E fiquei lá, esperando e espiando, procurando com o olhar aquele de quem me olha diferente. É isso que dói. Às vezes bate uma solidão, Luíza. Tenho medo de ficar sozinho. Fico imaginando que ela está com outro alguém. E com esse alguém ela deixa os meus sorrisos, os meus beijos. Hoje estou assim, Luíza. Hoje estou assim. Me culpando por não ter esperado mais dela, esperado mais ela, por não ter feito nada. Sentindo pena de mim. Deveríamos ter voltado àquele cinema. Aquele foi o dia em que nos beijamos pela primeira vez, sabia? É, bobeira essas coisas. Nunca tivemos nada oficialmente, mas todas as nossas datas eram datas. E o melhor é que ela sempre vinha diferente, sempre era a primeira vez.”

59

Minha primeira vez com Gabriela foi quase por brincadeira. E foi suave e simples, e as mãos se perdiam no frio, tudo foi tão bonito. Queríamos isso há tempo, sabe-se lá quanto, e o desejo nos tomava. E ela se despiu aos poucos, à meia luz e tinha um corpo, a luminária no canto projetava sombras, e tudo que nunca dissemos. E tirava a saia dela, e ela dizia que era só bobagem, mas não era dela. Não era.

60

“Não, não. Confia, Luíza, não. Não tem mais sentido ficar com a Gabriela, ela tinha o outro, e eu tinha você. E Você, ele. Eu e ela nos esquecemos de vocês. Era o que gostávamos. Sozinho é complicado. Mas, Luíza, a Gabriela não é você. Os beijos dela não eram frios, o modo que ela me envolvia na cama não era como você me abraçava. Ela nunca soube se comportar. Ela nunca soube se comportar. Você nunca será Gabr… Não, calma, senta aí! Você

precisa ouvir isso! Não será Gabriela! Porra, você me largou, Luíza. Você sabia da porra toda!

Você é uma filha da puta! Gabriela é alguém. Ela me ouviu, ela me ouviu. Ela me dava atenção, ela reparava quando eu queria falar, caralho! E eu ouvia ela. E vínhamos pro bar e ficávamos horas e horas debatendo e bebendo. Ela xingava os homens. Eu xingava as mulheres, e ríamos. E por mais que debatêssemos, eu ainda achava você perfeita, e ela ainda achava ele o melhor de todos. Depois de segundos, concluíamos que o melhor era esquecer tudo. O que tinha nesses copos nos dava esta opção. Ele? Ele fez muita merda. Ela tentou se matar por ele… Ah, pelo amor de Deus, Luíza. Você tá bem com ele. Vocês devem se merecer de algum modo e tal. Mas dele eu não falo nada. Ele é um dos poucos que já tive real vontade de matar. Você? Tenho um pouco a cada dia. Brincadeira. Passa o cinzeiro? Bem, de você já tive ódio. Mas só queria que você se fodesse. Que se fodesse tanto e esquecesse aquele puto.“

61

As estações corriam por trilhos vazios do trem estático. E lá fora tudo corria como se corre quando se quer, ou quando está tudo bem. E passava os olhos à solidão, se entregava a ela.

Enquanto o mundo parava para descer o metrô, tão desesperado, em palavras de fogo que vieram sem vergonha. A luz corre dos olhos dos que têm sono e da tristeza da sede que dá a alegria aos que nada têm. E os olhares que não olham e os desenhos que nos cercam e envolvem. Parecia o fim, era então. E entre árvores corríamos buscando árvores da vida. E estamos sempre passando dos nossos pontos. E ela se despediu de mim e ela foi o mais perto do céu. Gabriela. E as cicatrizes que o tempo desenhava enquanto descia a avenida. Complicado aceitar o esquecer, aceitar que a diferença feita foi dele.

62

“E você com aquele puto. Olha pra mim, caralho. Olha nos meus olhos. Você nunca será Gabriela. Porque ela sendo meu consolo de Luíza foi melhor que todas as vezes que você fingiu estar comigo. Mas agora que viciamos em esquecer, eu você e ela ele, e nós 4 juntos, temos novos porquês. É por isso que te trouxe aqui, Luíza. Eu quero uma nova chance. Com você, ainda tenho a Gabriela. E agora você faz parte de nosso vício.”

63

Ainda tenho o que sobrou. A caixa, sob a cama, com seus poemas, suas fotos deixadas para trás, suas lembranças tolas de todos os dias que foi feliz. Tinha também o cordão, brinco, calcinha, papel amassado, telefone anotado, a curva leve daquelas flores que desenhei em detalhes nos meus sonhos, na geografia que desvendei pelos dedos dos pés. Os olhos fundos tão cheios de mar. Nas mãos pequenas a catar coisas, a limpar o armário e fechar a porta. E ainda estou nas roupas que Gabriela veste. No perfume colocado sem sabor, na vida que nunca teve sentido. Estou na marcação dos pulsos, estou na tatuagem do pescoço, é o meu nome no desenho que ela esconde de mim, estou na marca de nome na bolsa de compras, nas chaves jogadas de volta depois de tomá-las na terceira noite em que invadiu minha cama. Estou no sorriso tão sarcástico para quem só resta em sarcasmo. Estou na porta fechando, fechando.

64

“Gabriela.”

“Hmmm…”

“Eu tava pensando aqui comigo. Se lembra daquela história da minha infância, dos camelos e tal?”

“Lembro.”

“Parece com isso”

“Hã?”

“Nós dois. Somos camelos. Andamos tristes, juntos, fingindo em um pouco de prazer conjunto que estamos em outro lugar e não ali. Mas nossos olhos não sabem mentir.”

O silêncio dela concordava à medida que saíamos do hospital. O carro seguia seu destino como sempre seguia, ela concordava sem olhar, sem demonstrar.

“Olhando quem nos olha lá longe, do outro lado da cerca, mas sem o que fazer, vendo a vida passar como quem não vive. Adiando nossas tristezas. Somos camelos de zoológico.”

Ela ficou quieta, cabeça baixa, como fico quando não sei o que dizer. Ela sou eu, e eu, ela. Tarde demais. Eu sou a vida que nem a minha vida mais quer viver. Ela é a vida que sempre vivi. Gabriela é o mais perto do céu. Não foi uma ilusão que inventei, não foi uma besteira qualquer. A verdade era simples. Eu caí de amores por Luíza muito rápido, e Gabriela, por Felipe muito tarde. Quando nos deparamos, eu era o sozinho e ela implorava o amor alheio.

Eu entendia o que ela queria falar e eu também. Quando a conheci, só queria entender o corpo dela. E mais nada. Os olhos cinzas sem atração me atraíram. Os seios, as pernas, o cabelo. O sorriso me cortou a vontade de ir embora para casa chorar pela segunda vez a partida de Luíza. Bebi até falar tudo e ela disse que deveria parar, mas mal nos conhecíamos. E nunca se ouve quem não se conhece. E ela me levou pra casa, me pôs debaixo do chuveiro, me fez dormir e contemplou o mausoléu, ou altar, de fotos, cartas, lugares, que construía de Luiza. Acordei com cheiro de café, era ela.

“Bom dia, trouxe café. E um chá que vai ajudar na ressaca, o sabor é péssimo, mas…”

“Obrigado. Gabriela. Desculpa perguntar, mas…”

“Não, não houve nada”.

O encontrar virou rotina. Ela era uma parte nova que surgia sempre que tomávamos café e conversávamos. Não ousamos por um tempo pensar no álcool. Não ousamos pensar em nada. Não ousei pensar em dizer “não” quando Luíza voltou. Foi quando o álcool voltou. E por culpa minha. Gabriela sabia e ironizava e via a ironia se tornar ao ignorar Felipe. E dizia que ele irritava e enchia e não sei o que ocorreu em pouco tempo para a alegria virar “não

dá mais” e deixar ir embora tornar ele tão único.

Quando terminei com Luíza, aceitei a proposta de fazer um estágio longe, de estudar longe, de estar longe e só estar. Gabriela surgia em e-mails e cartas e telefonemas casuais. E a mudança nas palavras ia surgindo. Aos poucos elogios, e mudava o tom das palavras. E tudo que falava era da saudade do quarto amanhecendo e das pessoas que buscava para esquecer o que sentia por aí. Saudade das luzes amarelas, saudade do vermelho. Não sabia outras palavras para descrever os casos casuais além de saudade. A saudade é a mãe de todos os casos. Somos o que perdemos, somos um amontoado de saudades. E frustrações. Luíza era a minha maior frustração. Estive tão perto, e eu quis ser a distância. Gabriela aos poucos revelou. Desejava Felipe, como quem deseja férias ou um pouco de paz. Desejava Felipe com ela, dentro dela, onde quer que fosse. Queria Felipe guardado no bolso.

65

“Felipe está com a Luíza. Achei que seria bom você saber.” O e-mail chegou sem assunto. Não havia mais o que discutir.

Discutiríamos a saudade. A eterna saudade do desejo, o desejo da saudade. Éramos desejo. E daquelas escadas não passaríamos e nem se sabia. O bar nos esperava na volta e bebíamos e bebíamos, em silêncio, guardando as palavras para despejarmos quando não sabíamos mais como falar. E xingávamos e elogiávamos e nos queixávamos, como os bêbados fazem. E então esquecíamos, e tudo parecia mais bonito, e ríamos do papel de idiota que fazíamos. Depois comemorávamos com mais uma rodada. Para esquecer novamente. E esquecer antes do depois, esquecer nos nossos braços, nos era melhor que lembrar sozinhos.

E eles cresciam juntos e viviam juntos e quando os múltiplos sentidos disso viraram reais, o bar onde morávamos não era igual a sempre. E andávamos, tentávamos ver outros lugares, outras vidas onde só víamos nossos erros. Falávamos pouco deles, apesar de ser disso que vivíamos e não gostávamos de admitir. Gabriela ainda menos.

Ele se afastou. O horóscopo estava errado. 

Luíza me mantinha como se não existisse. Estava certa. Depois do que eu fiz, eu também não existiria. Nunca diga adeus antes de se apresentar.

Depois dela, pensei que não haveria nada, e não havia. No quadragésimo andar, das quarenta portas e luzes e a vontade de voar. E meus dias se arrastavam e sonhava com coisas estranhas, com velhos morrendo, família morrendo, noites morrendo. A morte era desejo e obsessão tanto quanto o corpo de Luíza. Eu queria aquele corpo de volta. O sexo sempre fica melhor quando não faz parte do imaginário. E contava essas palavras tortas enquanto íamos para o cinema. E dizia que era igual a todos, e ela ria e estava feliz como nunca naquele dia. E estava ansiosa. Ansiosa como quem pode mudar o mundo de uma vez. E queria sonhar, o cinema fazia ela se esquecer do mundo que não admitia que esquecia. Gabriela tinha aprendido a viver, e vivia. E vivia contando histórias das coisas que fazia e das viagens que fazia com a faculdade e reclamava do meu medo da vida e falava que era retardado por ter medo enquanto meninos eram bandidos e morriam por uma droga qualquer que os mantivessem vivos e falou dos mendigos e seu breve vício com crack e falou daquele lugar que o jornal parecia enfatizar o lado católico e a capela que ficava em pé quando as casas caíam. “Era o Recanto da Santa”, Gabriela dizia. E Gabriela sonhava tantas coisas, sonhava que o tempo sumiria e encontraria algo diferente da vida, onde não visse Felipe todo dia dando “bom dia” como se ele não tivesse implorado, como se ela não tivesse também, apesar de manter o orgulho. Quem disse não foi ela. Quem ignorou foi ele.

E levava a vida esquecendo de todos e dos seus passados distantes que sempre havia guardado atrás dos seus olhos, até descerem e descerem, enquanto ela saía da sala e era um

corredor e ninguém passava por ali, e abracei, não sabia o que dizer, nem o que fazer. Ela fez e disse. E sentamos no chão de carpete e ouvíamos os carros e a vida e as motos e as pessoas. Já no primeiro dos beijos começamos a esquecer da vida.

E aquilo foi único e nos sentíamos bem. E nada de palavras ou explicações. Só se busca explicar o que não se gostou ou não se fez de bom grado.

Era o escape que precisávamos. E continuamos juntos, para esquecer, enquanto esquecia que não notava que quando ela me beijava, ela o beijava. E fingia que ela não notava que também havia Luíza nos lábios dela. E cada vez nos beijávamos era como se os lábios nunca tivessem se separado, como se Luiza sempre estivesse longe dos meus erros e do que fiz passar. O desejo de Luíza era o desejo de Felipe. Tanto com eles e conosco. As mãos e os lábios se multiplicavam, e os corpos esqueciam o que as caminhadas, conversas e cervejas já não faziam mais o costume de se iludir com a vida. Era costume dela tentar viver e esquecer.

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Nossa primeira noite saiu da combinação de tudo que vinha e tudo que viria, saímos e conversamos sobre o fato de eles estarem morando juntos e do noivado e do boato de que Luíza estaria grávida.

Sempre quis ser pai e ter família em algum lugar. Luíza indicava isso quando estávamos bem. Eu ficaria velho com Luíza. Eu teria filhos e netos com Luíza. Nunca passamos dos jantares infelizes onde nunca havia anel. Nunca passamos do medo que se tinha após a transa sem camisinha. Nunca passamos da pressão que fazia para ela tomar a pílula. Ela tinha razões e razões para me largar, e não só ela estava certa assim como Gabriela também. Era um filho duma puta, um merda, um vagabundo, um atraso, um idiota.

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E de nossas lamúrias surgiram as luzes e as danças e estávamos tão entregues à música. Ela me abraçou e chorava e nada mais ali fazia sentido. Dançamos em câmera lenta, como suicidas esquecidos no meio da vida, nos beijamos em câmera lenta, os corpos se descobriam em câmera lenta, a luz era fraca e as mãos se perdiam pelas escadas e era só bobagem, e era só bobagem.

No apartamento, a saia não era dela, e a velocidade continuava baixa, éramos dois borrões de luz, e ela queimava por que sabia, porque queria – como piromaníaca. E começaram as palavras a se tornar gemidos sem som e a voz dela era aquela luxuriante que saía pela porta depois e esquecia de mim nos braços de outro alguém, e quando minhas mãos apertavam os seios, ela arrepiava das palavras dele, do desprezo dele, da súplica dele. E a manhã não demorava a chegar, continuávamos a tentar nos achar em outro alguém que esquecíamos tentando lembrar.

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O dia não se foi e os pés dela procuravam os meus no frio e ela ria na cama e escondia o rosto na dobra do casaco e puxava para perto. E pulou da cama e correu e voltou com uma caneta e disse “levanta a blusa”. Continuei imóvel, com cara de preguiça e ela me beijou e levantou a blusa e abriu a calça e escreveu em minha virilha “Quero viver no bolso do seu jeans.” E sorrindo completou em meu ouvido palavras para ele, de modo lento e sussurrante e tão forte, profano, devasso, perversão, doçura “e ser a menina bonita do laço de fita dele,

um chaveiro, a chave. E me perder em sorrisos, viver em versos. Versos, ver sós, ver sóis. Luz”. Passou a língua em meu ouvido, me beijou, se trocou e saiu pro trabalho.

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“Me perco

não quero voltar.

Só ele consegue transformar um olhar

em literatura.

Queria ser um livro.

Me leia, me sonhe.

Quero viver no bolso do seu jeans.

E ser a menina bonita do laço de fita

dele,

um chaveiro,

a chave.

Me perder em sorrisos,

viver em versos.

Versos,

Ver sós,

Ver sóis.”

Ela dizia que deveria escrever mais. Dizia que tinha jeito com palavras. Era ela que escrevia. Ela que traduzia a confusão. Sobre isso tudo só escrevi “nos seus lençóis compreensivos

só crio sóis, só finjo viver”.

Depois de aprender como esquecer da vida, aprendemos a esquecer o desejo. Quando ele insistia, mudávamos as formas, os lugares. Quando fomos naquele lugar com outros casais nem éramos um. E esquecemos a vida, o desejo e o pudor. Éramos a luxúria que não nos dava prazer. Éramos tantos, e tantas mãos, e sem saber bem. E na primeira era a Luíza, mas todas as outras que apareceram eram Gabriela. Eram prazeres de swing que não saciavam, eram os sonhos que não nos descansavam.

Sobrava a vontade de sumir quando eles se casaram. E foi aí que surgiu o carro e o caminhão e a ladeira e a ligação com tudo que foi dito. Lembro das sirenes das ambulâncias, de murmúrios e sons que não sabia reconhecer. Lembro de André, do cartão de Felipe e da volta para casa.

E quando marcamos a conversa, já sabia que ela notara o mesmo que eu notava. E disse do tempo e do trabalho e da vida, e falei que seria diferente. Nos beijamos. E ela disse coisas e eu disse coisas e não sabíamos bem o que pensar. E beijávamos. E subíamos as escadas e sabíamos que seria a última vez. E nos beijávamos e perdíamos nossas mãos e naquela noite jantamos em silêncio, não brindamos. Sentamos em partes diferentes da sala. Os olhos queimavam do desejo que queria sumir. Os beijos pareciam nada. O corpo pedia, em todas as formas que o corpo pode pedir o que o carnal traz.

Continuamos em silêncio até a cama, ela se despiu, eu me despi. Deitamos nus e havia luz e havia ela, e mais ninguém. Nos abraçamos. Sabíamos bem que, se tentássemos esquecer mais, esqueceríamos nós mesmos em um abismo. Mas era o que sobrava dentro de mim. Gabriela. Os olhos fundos de Gabriela. O corpo de Gabriela. Gabriela sempre foi Luíza talvez. Ela é a única que volto a viciar, para esquecer de novo. Gabriela é a vida que eu vivo. Gabriela é a lembrança que eu lembro. Gabriela é o esquecimento que eu esqueço. E tudo cabia numa velha caixa sobre a cama que ouviu tanto, que viu tanto, nada além da melancolia e de dúvida.

A única certeza que tinha era que quando a via chegar, que quando notava que ela não era o que fingia que era, não era a perfeição que costumava colocar nas pessoas, era tomado pelo

alivio que a realidade traz aos sonhadores frustrados. Gabriela existe. Procuro em tantos rostos porque ela existe. E com olhos de pequenos bebês, ela suplica: “Eu sei que você sabe o que passa. E você sabe como eu sou e que serei a mesma. Por mim, por mim. Uma única vez, pela primeira vez, por mim. Por favor, não goste de mim.”

E as imagens voltavam e repetiam na mente como se não bastasse. Era tudo como filme. Sempre era assim: a ruiva de olhos fundos que lembrei de não esquecer de novo e de novo em frases para um outro amor que escrevia em minha virilha, em tatuagens que só mostrava para mim. E era minha vida, só a minha. Alma. Lembramos.

E dizia: “Por favor, não goste de mim” com a naturalidade que se pedia. “Hoje não.”