Nadastar

Para Pedro Corrêa

Nota do autor para a nova edição

Meu avô é um homem simples. Nasceu, cresceu e envelheceu pelo trabalho de suas mãos. Muito do que ele fez na vida foram coisas das quais eu discordo veementemente, mas tem um detalhe em especial que me deixou sempre muito orgulhoso: ele descobriu algo que amava e se agarrou isso, no caso a leitura.

A infância e juventude do meu avô foi uma sequência de tragédias que resultou em trabalho infantil e analfabetismo. Mas ele, enquanto gari da prefeitura do Rio, veio ter contato com as histórias por meio de repentistas e foi através do cordel que ele se apaixonou pelas palavras. Lembro que quando eu aprendi a ler, ele ainda arranhava em escrever mas sabia ler muito bem e recitava longos trechos de seus cordéis favoritos, que guardava ao lado das fotos de família. Era um tesouro.

Cordel foi um dos primeiros modos de pensar texto que tive na minha formação e quando tinha 16 anos montei esse longo poeminha sobre fama e fracasso ao estilo de cordel. Não segui métricas, até por não saber delas, mas fiz no sentimento. A ideia era de ser exatamente um poema para ser lido em voz alta, como se fosse um repente.

Na época, em 2007, não dediquei pra ninguém esse texto, mas agora está aqui pro meu avô. 

Obrigado, vô. Por insistir em ler.

Acontece, lugar nenhum

Dia até de noite, dizem

Fundado um dia por algum

Bem vestido alguém

Montagens de barro pouco

Janelas largas, o Sol vem forte

Trincheiras de pau oco

Doenças das bandas do norte

Meninos gordos só de fome

Desde o tempo do avô do avô

Diziam “Mandacaru faz homem”

“Esquece a sustância pra compor”

Chuva de dia, reza deu trela

Ribeirão voltou-se e foi 

Chão rachado virou viela 

Levou as casas, o boi.

Na baixa d’água, nem vila tinha

Chamar todos, é hora!

Três filas de caixote, justinha.

Velho e novo. Sem demora.

Escreveram na lama com um toco

Os planos de grande cidade

Os mais velhos estranharam um pouco

Mas tinham que cuidar dos sem idade

Três gerações depois

Nem mandacaru mais dava

O ribeirão cansou de voltar e se foi

De cansar, a trégua voltava.

Dias depois chegou um padre menino

Saído – batina sem rasgo – do seminário

Pregava e orientava os hinos

Planejava construir um santuário

“Santo algum nessa banda de cá”

Disse Zé Arreio, sobrinho-neto de cangaceiro

“vossa santidade há de achar”

diz que pegou o rumo de Juazeiro

Mês após, o coronel apareceu

disse que era herdeiro dessas sesmarias

reuniu todo o povo que desceu

e disse o destino dos severinos e marias

“tudo meu, do ribeiro ao agreste”

Começou a chover, povo mal ouvia

“e de tudo mais, até o oeste”

o povo quieto nem se mexia

coronel levantava a voz, povo não 

enquanto o dia sorria sem sol levantou, 

sem apoio nenhum, a mão 

seus empregados vieram com arma e anzol

Choveu sem água e a vila levantou

não tem mais lugar, já foram pra longe

Zé Arroio honrou o tio-avô

fez de si uma espada de São Jorge

Foram treze minutos mal lutados

nas ripas de madeira nadaram dali

foi caco de vida pra todo lado

mas daquela terra não dava pra sair

Da resistência, agora era filho de Lampião

ferido mortalmente gritou:

“Vila de Santo de Valia Alguma, vocês são”

Ninguém entendeu, mas acatou.

A cidade assim surgiu

sem planos na lama, sem nada

só um nome e um filho novo por dia

Terra ruim onde mal se valia enxada

Passando e passando, os anos corriam nas rachaduras

Havia no centro, praça de lugar vazio.

Houve tempo do comércio ir além das verduras,

jegue manco, cão sem dente, vela sem pavio

E foi juntando gente, coisa e animal

A cada passo, duas casas, lado a lado

E surgiu uma rua principal

E povo apressado

Corriam para nada fazer além de andar

reclamar dos preços do Manuel, nadar na beira

“boa tarde, compadre”, a cumprimentar.

Rezar para chover e chover para bebedeira

Num janeiro, a vida foi mais devagar

Na noite longe, definiram o essencial

pra legalmente a cidade fundar

puteiro, igreja e cabine policial

Nome e sobrenome a rua ganhou

“Av. José Arroio”, tido por guerreiro

da beira do ribeiro ao nada, estradas traçou

uma ia pra São Paulo outra pro Rio de Janeiro

As que iam pra capital, onde estão?

As do lado eram profundas e temidas

caminhos além-coronel, coisa do cão

que rondava procurando namoradas distraídas

Indo pro fundo era o caminho do Senhor

Capela e cemitério eram lá, fins de remédio.

Indo reto passava de Juazeiro e rumava para Salvador.

Tinha até pegada de Padre Ciço. 41, por obséquio.

Surgiram caminhões, grandes e sem pra vila olhar

A do santo sem valia e das crianças rindo 

só havia isso a ver acima do chão a rachar 

Colheita do mato com cana vindo

Das terras do coronel que o cheiro vinha

Comida boa, plantada e hoje colhida

Cachaça fresquinha tinha

Cana viva em terra doída

Surgiam homem de terras importantes

Apertaram mãos e se foram

na longa noite a seguir, nada foi como antes 

surgiu rodovia, ponte e pedágio no ribeirão

A ponte passava por cima da vila sem valia 

a rodovia logo após e pingava de volta na terra 

do caminhão, do alto da ponte, cachaça escorria 

muito foi se ver e ser o que já era

Rodovia larga, BR-algo assim

com caminhões de cana

ônibus sem fim

andarilhos sem cama

Nesses etílicos dias escuros

Um novo ninguém chorou pro dia

Feia, faminta e sem no queixo furos

destinada no máximo à bóia-fria

Cresceu ali, com poucos trocados

Gerando riquezas na plantação

e de uma só, olhos vidrados

na recém comprada televisão

Sem escola, geladeira

fogão ou cama por lá

Imaginou ser estrela verdadeira

passando longe dali pelo ar

Ano após ano, esquecia de ser

a medida que via a cidade descrescer

menino vira homem fazia as malas e ia descer

só nas terras molhadas do coronel dava pra viver

Todos os rostos da infância sumiam na poeira do ar

A cachaça provava a muitos que não havia o que perder

A chuva se foi, deixou céu azul e dito de não voltar 

mas ela tinha seus canais e era quem pensava ser

Já não era dona das enxadas e dos lados

arrumou emprego num bar, como a mocinha da novela

a beira da BR-algo, para caminhões pálidos 

que nunca passavam na TV, na vida dela.

O caminhoneiro sujo de viagem por três estados

gritava pelo café que estava escorrendo 

além do pires na hora do beijo apaixonado 

com frases clichês e lágrimas escorrendo

Uma mocinha sofrida de amores não caíra 

por homem belo, mas só de frases cheio

Era humilhada por uma velha traíra

Odiável tipinho que vivia sem ao menos receio

Ela se uniu ao pai do homem belo inexpressivo 

Ele não era mau ao todo, só usava roupas estranhas 

e tinhas males com ele, quase impulsivo

Era segredo grande que guardava nas entranhas

Por isso, sem hesitar, contratou a menina sofrida

Vestida de trapos, limpando o chão da traiçoeira dali

E veio briga, com no fim cobra ferida

Cabelo puxado e um segredo que tinha que sair

O rapaz de tanto desespero desmaiou 

pois o homem que contratara era o pai nunca descoberto 

bocas abertas em close e o capítulo acabou 

e no bar, comovida, a menina esqueceu o caixa aberto

Assim foi demitida pela primeira vez, após alguém tirar tudo dali 

ela voltou depois pois ninguém sabia 

fazer troco na sesmaria readmitida com promessa de nunca mais sair 

como os socos que a mocinha daria

Nos fundos, um pedido de banana da terra

se perdeu entre pães na chapa, numa junção gordural

o incêndio pode ser visto da estratosfera

exceto ela, grudada na novela global.

Naquele dia saltitava de volta pra casa com a rua no olho

Estrelas brilhando entre a fumaça e cheiro da queimada

Olhou pro ribeiro seco que de vê-la borbulhou

Na água viu alguém em sonho e se sentiu amada.

Era ela entre as estrelas, queimando o sertão 

via árvores frondosas e casas com cercas brancas 

muito falavam dela e mentira era não 

ignorou todos, o incêndio e a casa e foi à banca

Comprou uma revista sobre ela mesma com o que tinha a mão 

estava no shopping, com o namorado, estreando peça, 

numa festa, dançando, na praia passeando com um cachorro gordão 

Dando dicas de dieta e em anúncios. Não sabia quem era ela.

No bar, a placa de emprego vago não saíra do lugar

Depois de duas semanas chamou ela de volta, sem opção

Ela relutou, fez caminho, como estrela pra se apresentar

Fez o homem implorar, como o homem sem expressão

E ele viu a estrela. Ela era algo mais em algum jeito

e continuaria com seus mimos e presentes

Ela com a TV, ele amando outro feito

e os cobradores fazendo fila em frente

As dívidas fizeram rosto e o bar teve que vender

Mas como se ela era estrela? Talvez ele que não era

Closes entre os dois não existiriam, era tempo a perder

Deixando ele na bebida, foi embora

O dono do bar tomou rumo da cidade

pelos bancos e muros que o viam

nos cochichos sentia reciprocidade

se atirou no rio, mas só pedras havia.

Nunca se vira, naquela terra, tal burrice

no cortejo negro, tinha de carpideira a vendedor de bolacha

E ela dormia em paz, em tanta brilhantice

Na sua revista eles se casam e são felizes, acha

A cidade se fez luz, uma luz vermelha

Tudo ruindo e história virando

Os bois virando cavalos de corrida parelha

Tudo no ar se transformando

Tudo seguia no tempo até o tempo parar

O padre paralisado em seu carro e santuário pessoal

Deus e Diabo jogando amarelinha a atravessar

A ponte resistindo até a capital

E ela numa cidade de luz forte

Era luz que criava cores e curvas até

Era uma estrela nova, de grande porte

Acordando assim, em lugar qualquer.