Invocações

Para Nathalia Pandeló Corrêa

desterro

Em 1775, no bairro onde cresci na Zona Oeste do Rio, começaram a erguer uma igreja em homenagem à Nossa Senhora do Desterro. Ela ficava no coração do bairro, que hoje é outro do que era em minha infância.

Ainda mais pela especulação imobiliária e tudo que aconteceu. Mas uma coisa não mudou: ali é o bairro do esquecimento.

Desde a era dos coronéis até os novos, dos líderes de tráfico aos líderes de milícias. Todos são esquecidos e ninguém saberia dizer por quê.

Os primeiros esquecidos foram os índios pinciguabas, que foram massacrados e, sobre seus espíritos e sobre os espíritos da mata, foram fincadas as cruzes dos jesuítas. Cruzes que viraram a igreja.

Igreja que consumiu os corpos dos índios e dos negros.

Foi muito irônico como do suor africano surgiu aquela paróquia. Uma homenagem à padroeira daquelas que eram obrigados a sair de suas terras, como a sagrada família fez quando se tornou refugiada. Isso sempre esteve na nossa história e nós nem sabíamos.

Nós nem sabíamos que foi o selo de proteção de inúmeros deuses que passaram aqui antes, nas lágrimas e no suor dos massacrados, nos pensamentos dos esquecidos, nos braços de Nossa Senhora carregando o menino Jesus, cansada de fugir. Foram todos esses que nos encontraram em nossa fuga.

A oração dizia para afugentar de nós a peste e os desassossegos enquanto sentava-se num berço de escravidão tão comum para nós, brasileiros, que nem sabemos o que somos.

Foi essa igreja que montou o bairro.

Por que os jesuítas montaram os caminhos de água que possibilitaram o cultivo de café, que destruiu o solo. Depois veio outro cultivo, exportador, de laranjas. O reino de pequenas fábricas. A força de um comércio central suburbano. As guerras de facção. O estado policial. Mas nós sempre fomos um estado dormitório, de todos aqueles expulsos de sua terra para morrer num deserto do trânsito por achar isso bom, por achar isso justo. Por achar isso engrandecedor. Por ser conformado em ser o maior bairro de uma das maiores cidades do mundo e nem saber o que é ou onde está. Por aguardar em Deus, em Nossa Senhora ou em algum pastor na TV que prega prosperidade algum motivo que fizesse você ser especial e parar de fugir e fugir sem sair do lugar.

Nos cobre, por favor, com vosso manto maternal, ó divina estrela dos montes. Desterrai de nós todos os males e maldições. Liberta-nos de seu desterro e nos dê um rumo, Nossa Senhora do Desterro. Principalmente para aqueles que, na frente de sua igreja, tentaram me bater para que eu aprendesse a ser homem quando eu tinha dez anos de idade e você não fez nada.

Levante do seu trono de sangue, do seu trono de escravidão onde nós todos estamos sentados.

Rogai por nós.

cabeça decepada de saint denis

Enche-me de glória, Cabeça decepada de Saint Denis

Banha-me de sangue, traga luz divina

Quando tentaram te calar, Cabeça decepada de Saint Denis

Você se levantou, se levantou nas ruas de Paris pingando milagres

Enche-me de glória, Cabeça decepada de Saint Denis

Pegue meus restos, como seus pedaços, corações sagrados em seus país

Quando tentaram te calar, Cabeça decepada de Saint Denis

Você se levantou, se levantou nas ruas de Paris, pingando milagres

Encha-me de glória

ouça minhas palavras tortas

minha invocação repetida

ilumina-me na dor

quando tentaram me calar, cabeça decepada de todos nós

me levante, levante nas ruas do Brasil, pingando milagres no subúrbio

vozes nas ruas de paris

Muitas vozes nas ruas de Paris

São muitos os deuses nas ruas de Paris

Turco, inglês, africâner

alemão, japonês, português

Protegidos com o arco de arjuna

A sabedoria de Krishna

Sob a justiça de Xangô

na companhia da mãe Dea Matrona e a luz de Allah

Cujos olhos escondidos das ruas de Paris

Olhando mundos não-franceses

que os cartazes na estrada avisam que não são bem-vindos

que rostos escondidos julgam a cor de minha pele

muitos ouvidos nas ruas de Paris

muitas orações para múltiplos deuses

que nos protejam

scott 21 anos

Venha até nós, Scott

21 anos quando morto

Morto no terceiro dia de Afeganistão

Seu espírito corre com os cavalos selvagens nas terras altas

Seu espírito corre ao lado de seu tio, seu avô, seu bisavô

gerações de homens mortos em terras estrangeiras lutando guerras dos outros

Venha até nós, Scott

21 anos quando morto

Morto no terceiro dia de Afeganistão

Seu espírito corre com os cavalos selvagens nas terras altas

Teria mais de 30 hoje, faculdade, emprego, filho, casa, carro, talvez uma pessoa amada

e não uma placa de ferro no chão frio de uma parada da estrada

Venha até nós, Scott

21 anos quando morto

Morto no terceiro dia de Afeganistão

Seu espírito corre com os cavalos selvagens nas terras altas

A bomba explodiu ao lado do transporte

virou duas vezes no ar

de ponta-cabeça, metal e vidro mudaram de lugar

o fogo começou a avançar

ao lado dos soldados mortos, preso nas ferragens, sem sentir as pernas

“tudo vai ficar bem”, pensou Scott

21 anos quando morto

Morto no terceiro dia de Afeganistão

Seu espírito corre com os cavalos selvagens nas terras altas

jesus na serra

Apareça pra mim, Jesus guardião esquecido de um Império imaginário

Saia do meio da névoa e apareça para mim mais uma vez

ó, Jesus esquecido na subida na serra

guardando um mirante pouco notado após uma curva fechada

olhando o resto do estado e tão longe de onde proteges

por isso esqueceram de você, Jesus?

apareça pra mim, depois de sua curva, como na primeira vez

você apareceu para mim como num sonho

eu era um menino e era a primeira vez que eu subia a serra

estava com meus pais.

Tinhamos ido buscar produtos baratos pra depois voltar para casa

paramos para te ver

toquei sua base e você me amaldiçoou

fui obrigado a voltar e voltar e voltar por isso

apareça então

Jesus esquecido na subida da serra

entre luzes de velas que brilham no meio da névoa

como pontos de oração que finalmente chegaram aos céus

abra novamente o caminho da serra

me faça menino de novo

como da vez que fui encontrá-la

me esperando na rodoviária

como se fosse a primeira vez.

abra os meus caminhos, proteja-me nos seus braços

me leve pra casa, Jesus esquecido na subida da serra