Bucolidade Urbana

Para Tânia Corrêa e para a memória da Vó Zita e Vó Nair

Nota do autor para a nova edição

Cresci em Campo Grande, na Zona Oeste do Rio. É um bairro que talvez seja melhor conhecido pelo calor fora do comum e pelos esquemas de milícias. E é um pouco isso aí mesmo. Quando estava chegando na adolescência, todos meus amigos repetiam a mesma coisa: que não viam a hora de sair dali.

No início da minha adolescência tínhamos um cinema péssimo, nenhuma livraria e pouquíssimas opções de lazer. Tudo que gostava ficava horas e horas de ônibus ou trem de lá. Quando tinha uns 13 anos, eu juntava um dinheiro durante os dias de aula para nas férias passar o dia inteiro fora. 

A minha irmã trabalhava na Avenida Presidente Vargas e eu ia e voltava com ela, e ficava entre museus e bibliotecas. Meio sem rumo e sem pressa, pesquisando e lendo coisas. Tudo que está nesse livro foi feito nessa época. Eu me sentia livre para tomar a cidade para mim. 

Agradeço muito a minha mãe por ter me dado a liberdade de fazer essa loucura que é soltar uma criança no centro da cidade do Rio de Janeiro. Ver as ruas e o trânsito me fez valorizar mais algumas coisas e repensar a minha vida. Hoje consigo ver isso, 15 anos depois da sua publicação original. Muitos dos textos ficaram caducos por serem do olhar de um adolescente ou pela própria cidade se transformando drasticamente. Por anos, escondi esse livro até da minha esposa, não deixando ela ler por sentir um pouco de vergonha dela conhecer esse olhar quase infantil. Mas é isso, acho que muito do Daniel de 30 anos reside ainda no coração desse de 13 anos, andando pelas ruas do Centro em busca de conhecer mais.

O texto que você lê é uma revisão com alterações do texto original realizada em 2016 baseado em arquivos feitos antes da publicação e com um pente fino nas semanas antes desta publicação.  Mas espero que se comunique com seu adolescente interior.

ATO 1

Cappuccinos, papéis, clipes e uma TV

Próxima Estação: Estácio

As linhas de metrô daqui do Rio são estranhas. Ou pelo menos curiosas. Um percurso que poderia levar horas para percorrer, faço em questão de minutos: cortar a cidade em duas. Da Zona Norte à Zona Sul.

A Zona Norte parece ter sido esquecida de algum jeito. Seja pelo tempo ou pelas autoridades competentes. E é exatamente por lá que passa a linha de superfície. Como que nos forçando a lembrar do que eles se esqueceram de esconder.

A linha subterrânea passa pela Zona Sul. Lá fica aquele Rio de novelas e turistas. Mas lá também existe muita pobreza e violência. Só que aqui eles lembraram de esconder.

Ambras – a lembrada e a esquecida – se encontram na Estação Estácio, onde milhares de esquecidos passam todos os dias procurando um meio de serem lembrados. São famintos perdidos. Não acho que sou faminto, mas quanto a perdido não tenho dúvidas. Sou João. João Bobo. João Ninguém.

Em dias de chuva, como hoje, o Rio não parece tão maravilhoso. É como se todas as tristezas evaporassem, como suor, na alegria do Sol, para despencar em rajadas potentes, munidas de raios de mal humor. Causando enchentes de chatices crônicas unidas a manhãs tediosas de trabalho. Sim, é de manhã e sim, tá muito chato.

Entrei no vagão. Segurei na barra de apoio no centro do vagão. Nessa hora da manhã você dificilmente consegue um lugar para sentar. Fiquei olhando ao redor. Admirar caras de sono é uma arte. A cidade demora a acordar. Acho que é a única maravilha do Rio assim. Tudo é uma obra de arte. Tudo desperta. Tudo dorme.

E o trem vai parando sonolentamente nas estações que ninguém entra. As estações ficam lá, sozinhas. Sem nem um sonolento sequer. Às vezes eu me sinto como uma dessas pessoas. Esperando algum trem chegar mas nunca teve nem um. Às vezes parece que vai aparecer algo, o que que já surgiu. Mas eram ilusões. Infelizmente, essas sensações são bastante comuns.

“Próximas estação: Del Castilho. Estação de integração para o Fundão. Saída pela direita”. Aquela voz do metrô me tira daquela estação deserta. A porta abre. Ainda chove lá fora. Dá para ouvir. Ela se apoiou na mesma barra que eu. Pôs a bolsa no chão e a segurava com o pé enquanto tentava ajeitar alguns papéis que carregava dentro de uma pasta.

  • Moço, com licença, que horas são? – disse ela.
  • Hã?
  • Erm… As horas, por favor.
  • Nove e vinte e cinco.

Ela disse para si mesma um “merda, estou atrasada”. Eu disse para mim mesmo “meus parabéns”.

Melhor assim, sem papo, só caras de sono e minha estação esquecida. Viro para o outro lado e me perco em mim.

  • O senhor está bem? – alguém me achou – Sabe, eu também não gosto da cidade em dias assim. Sei lá, perde a magia e…

Esse foi o momento que a vi pela primeira vez. Olhar é uma coisa, ver é outra. Ela era loira, alta. Belos olhos. Todos olhavam para ela mas nem todos a veem. 

  • Magia? – eu disse, ou tentei.
  • Aquela alegria estranha de sempre. Parece que a chuva carrega tudo. 

Ela fala igual a mim.

  • Ah, sou Jéssica.
  • João.

Ela tem mãos macias. Tentava não olhar para aqueles olhos. Não de novo.

  • Olha, João. Desculpa se estou sendo incômoda, mas noto que você não está bem. E, tipo, eu faço psicologia. Não sou “oh, a Freud de saias”, mas quem saiba, possa ajudar.

Ela sabia meu nome.

  • Acho que é um pouco de solidão. Nada demais. 
  • Somos todos vítimas dela. Isolados pela urbanização, pela tecnologia. Eu também tenho umas coisas assim. Mas como se eu corresse, corresse e não soubesse parar.

Como um trem sem estação.

  • E fico rodando essa cidade para um estágio horrível, mas é o que tenho…

Se sentindo uma qualquer. 

  • Eu só queria atenção, sabe? – Jéssica disse.
  • Eu só queria você.

Não sei se era eu, mas naquele momento de um beijo repentino foi como se tudo sumisse. Só existia aquilo. Ela me beijou e foi um adeus. “Próxima estação: Estácio. Desembarque obrigatório. Saída pela esquerda.”

Ela me abraçou, tentei beijá-la. Ela parou meus lábios com a mão. Acariciou meu rosto e sumiu na multidão. O trem passou na minha estação e não fiz nada. Tentei correr atrás dela, mas não estava mais lá. Continuo o mesmo João Ninguém, na minha velha estação, olhando a minha própria cara de sono enquanto a cidade acorda. Esperando o retorno de algo que não retornará. Ela deve estar em outra estação.

Saudades do Rio

Andando de ônibus por aí, se chega numa conclusão lógica: a cidade não é a mesma. Toda confusão e barulheira perderam samba e bossa. O Rio fica sem alma, esquecido como o amor do pierrot pela colombina. Esquecido em carnavais onde isso era encenado.

Outros esquecidos foram os malandros. Usavam inteligência pra conseguir o que queriam e os que se dizem malandros nem sabem formar uma frase direito. Malandros extintos. Sinto saudade de andar no Bonde de Santa Teresa e ver o Centro. Lembro das serenatas que fiz pra ela. Lembro dos passeios escondidos no Jardim Botânico. Lembro do suor em minhas mãos ao pedir a dela.

Lembro da casa na Baixada. Da do Subúrbio. O negócio em Madureira. Tom, Drummond, Vinícius. Lembro da ditadura e de esquecer do samba. Chico me lembrou. Lembro do carro que íamos até Ramos, das tardes de domingo no Maracanã. 

Lembro bem, você me deixou. Roubaram você junto do velho carro.

Lembro da dor que ficou todos esses anos. Meu coração parava. Eu lembro. Agora.

Lembro que talvez aconteceu alguma agitação no ônibus, tentaram me levar a um hospital. Lembro que não havia lugar.

Lembro que apagou.

Sobre gaivotas, morenas e ventos

Gaivotas não voam em dias de vento forte, elas planam indo na direção que este as leva. E o vento tem um poder imenso. O que estava longe pode estar ao seu lado e o que tinha em mãos pode se perder.

Planei para perto dela. Ela que sempre me pareceu tão longe. Ela, a morena. Abraçou seus abraços morenos. Sorriu pra mim seus sorrisos largos. 

Sempre pareceu resolvido enquanto o vento estava ao meu favor. Eu rumando em direção à tudo que amava. Mas tinha medo do vento não avançar. Esperei o vento. E ele me levou até você uma última vez. E suas mãos injetaram melancolia em mim. Me marcou do seu jeito, morena. E o vento mudou. Hoje esqueci o que é vento.

Eleonor

Eleonor corria atrás de um táxi, que corria atrás das estradas e já estavam desistindo de procurar um lugar para ir. Quando parou de correr, sentou no banco e ordenou o motorista para ir ao aeroporto. Imediatamente se arrependeu.

Suas unhas eram corridamente roídas e seus dedos mecanicamente estalados e sem notar já tinha chegado. Entrou pela porta não muito confortavelmente. Colocou óculos escuros, não queria ser notada. Não agora. Caminhou lentamente até o painel com os horários. Suas longas botas de couro rangiam a cada passo. Ela tinha medo de estar feia.

Rangeu rapidamente até o banheiro que ajudou, nas jorradas potentes de água, a limpar o rosto dela e a desesperá-la, já que a água borrou toda sua maquiagem. Buscou nos confins da agora infinita bolsa seu estojo. E se maquiou rápida e desesperadamente. Ajeitou suas roupas, tentou de algum jeito fazer aquelas botas pararem de ranger colocando folhas de papel higiênico dentro delas.

A porta foi chegando mais perto, de tão deslumbrante que ela estava. E ao passar por ela, ficou de longe espiando. As botas já não rangiam e não havia nada para impedir que a primeira impressão fosse boa.

Quem esperava ainda não aparecia e seus dedos se mecanizavam novamente e suas unhas corriam. Tudo parou no ar no momento que aquela figura familiar surgiu no outro extremo do aeroporto. Aquele sorriso sonhado. Eleonor sorriu. E o aeroporto parecia gigante. E aumentava mais. E tudo distava mais. E Eleonor achou ter visto um rosto de decepção na pessoa amada. E se sentiu um lixo. E pequena. E horrorosa. E chorou.

E o taxista perguntava se ela estava bem. Não estava nem na metade do caminho. As estradas corriam levando os carros parados das pessoas paradas. Ela pensou um pouco e pediu para que o taxista parasse em uma sapataria. Ela achava que deveria trocar suas botas.

Eco

Carlos – E ela corria, andava, rodopiava e pulava. Como um anjo. Como a me tentar. Fazia oito anos que não a via. Ela sempre foi aquele tipo de garota que todos se apaixonavam de cara. Eu a amei, Mariana a bailarina. A delicadeza e gentileza daquele anjo flutuante iluminaram aquela soturna apresentação. Seu vestido preto com sobreposição em roxo pairando na brisa dos movimentos. Ela não vai te reconhecer. Não fala com ela. Seja racional por mais que não tenha sido seu forte.

André – Fada iluminada em cima do palco. Fazia oito anos que não a via. Eu a amei, Mariana a bailarina. Ela sempre foi linda, mas parecia ainda mais. Os olhos fixos na apresentação, os longos cabelos. Eu tenho que falar com ela.

Carlos – O abraço me fez flutuar no cheiro de todas as flores que possuía. Ela sorriu ao me ver. Elogiei o show, elogiei ela. Ela ria envergonhada. Aos poucos me aproximávamos e algo dentro de mim dizia “beija”. Já sentia o gosto dos lábios quando ele apareceu.

André – Ela estava lá com Carlos quando cheguei. Carlos é meu sócio. Temos uma empresa de demolição. E lá estava ela. Linda. Eles sempre foram muito amigos. Ela abriu um sorriso quando me viu.

Carlos – Ela sempre amou André. Eu sabia, ele não…

André –  Ela me beijou e tudo parou. Era Mariana a bailarina. E ela suspirava palavras no meu ouvido e tudo que ouvia era o arrepio no meu braço. 

Carlos – A cena corria, andava, rodopiava e pulava em minha mente. Fui embora demolido segurando a chuva que insistia nos meus olhos.

André – E ela me iluminava, e beijava e arrepiava. Com o tempo, me fez rogar de joelhos a fé no amor para toda vida.

Carlos – Não lutei com a chuva ao receber o convite. As letras corriam, andavam, rodopiavam e pulavam e arrastavam pela mente de uma imaginária Mariana a bailarina.

André – Envolto no momento não notei quando o brilho surgiu em minha frente. Carlos apontava uma arma para nós. Avancei nele por medo de perder o que por um momento que nunca se foi, era meu.

Carlos – Foi ela que pôs aquilo em minha mão, foi ele que fez isso.

André – Socava ele contra o chão e tentava parar a demolição.

Carlos – Disparei duas vezes e ela se foi serena, Mariana a bailarina.

André – Desabado desespero do apagão.

Carlos – Fuga humilhada de si.

André – Na tentativa de vingança, um tiro na perna e mais um tiro em quem perdeu.

Carlos – Dois olhos flamejantes pararam ao me ver caído no chão, perna detonada. Fazia 10 anos que não a via. Ela sempre foi aquele tipo de garota por quem todos se apaixonavam de cara. Eu a amei, Carla a médica.

Pesares Relativos

Ele – Foi atípico. Todo dia eu acordava cedo. O trânsito não era muito bom mas cheguei cedo demais. O Centro costuma demorar a acordar. Eu nem sei direito se estava acordado ou se era eu mesmo. Eram cinco e meia e andava da Central do Brasil até a Cinelândia e vendo os arcos e entrando em prédios e vendo o que não deveria ver e fazendo o pior. Definitivamente foi atípico.

Ele também – Nunca contei o que tinha feito na minha vida antes. Eu incorporei o papel com alma. Tinha todos e não tinha nenhum, só ele. E agora perdi. Nas dobradiças rompidas, no hotel, nos lençóis cheios de gozo, no meu corpo cheio de marcas. O homem ao meu lado abria os olhos desesperado enquanto o outro respirava pausadamente em cima da porta que foi cúmplice do que se passou antes.

Ele – Um ano atrás todos os dias eram absurdamente parecidos e estava acostumado. Todo dia fazia sol, chovia e quando chovia, fazia sol. Todo dia eu saía de casa, com a mente ainda dentro dela. E sempre ficava em casa, pensava em sair. Todo dia andava ruas cinzas imaginando beber em algum bar e sempre que bebia pensava em andar para longe.  Todo dia lia as tragédias no jornal e achava normal. E quando me senti normal, foi uma tragédia. Chegava ao trabalho com minha cara de sono e meu sono era com ar de quem trabalha. Levantei os olhos por um segundo onde o ar, parado, seguia em volta do meu chefe que apresentava para outros funcionários o meu amor que conheceria em momentos.

Ele também – Aquele seria um dia atípico, um ano atrás. Novo lugar de trabalho e eu ainda inseguro e desconfortável. Era comum achar isso. O novo chefe me apresentava para todos e um ao longe me chamou a atenção. Senti um calor por um momento. Após poucas palavras, senti naqueles lábios o que achei quem precisava. Era algo maior.

Ele – Agora custava a acreditar no que meus olhos mostrava. A cama cheirando ao que não queria sentir. O que jurei fidelidade em cena congelada em chamas.

Ele também – Ele me amava e me tirou dessa vida, por uns trocados disse que não me largaria. Mas não dá mais para arrepender.

Ele – Saquei a arma. Ele gritou. Eu silenciei.

Ele também – Espero que…

Ele – O segundo do primeiro encontro sumiu enquanto via o rosto dele caído. O outro correu. Atirei e ele caiu pelas escadas. Atravessei a porta em lágrimas atípicas rumo às ruas cinzas até o trabalho onde esqueci o porque te amava, Antônio, enquanto perguntavam os motivos do seu atraso.

Perfil

Aquela parede de fumaça fedida que vinha da boca daquele policial e essa luz ofuscante nos meus olhos já me previam que algo ruim aconteceu. Minha cabeça doía enquanto tentava lembrar o que houve e porquê sentia uma tonteira horrível vindo debaixo do curativo na testa.

O policial que estava do outro lado da mesa jogou alguns papéis para que eu visse e tirou o cigarro da boca.

“Conhece esse homem?”, disse apontando para uma foto presa com um clipe nos papéis.

Respondi que sim ao reconhecer Alex, meu vizinho. Era o tipo de homem que uma sogra se orgulharia em chamar de genro. Trabalhador, sensível, sincero, amigo e amava muito sua mulher, a Milena.

O policial deu mais uma baforada.

“Seu vizinho Alexandre matou hoje à tarde sua esposa com seis tiros. Ela estava com outro homem que possuía sinais de tortura e estava esquartejado. Suspeitamos que o ferimento na sua cabeça venha dele. Se você viu algo, ele deve saber. E se ele sabe, você precisa tanto da nossa ajuda quanto a gente de você”.

Estava chocado, mas parecia algo marcado. Milena sempre recebia um homem em casa pouco depois que Alex saía e ele ia antes dele chegar. Até eu que não seguia as fofocas da rua já tinha ouvido essa. 

Tentei passar pro esfumaçado policial tudo que sabia e ele me liberou com sinais de fumaça. Explicou que podiam me levar em casa, mas neguei que precisava de ajuda. Precisava de um bar, de uma comida gordurosa. Assinei documentos, preenchi papéis e saí da delegacia em busca de ar puro.

Olhei para um relógio na rua. Duas da manhã. Fui andando devagar e notei que não tinha ninguém por perto. Talvez devesse voltar para casa. Uma arma surgiu nas minhas costas. Não sei como, mas sabia que era uma arma encostada em mim.

“Olá, vizinho. Quer uma carona?”, disse Alex, com uma camisa manchada de sangue. 

Ele me fez entrar no carro, no posto de motorista. Suava frio sem saber como manter uma calma na mira da arma. Ele me mandou dirigir até sair da cidade. A ansiedade dele me dava medo. As ruas passavam e a arma era pressionada contra mim.

“Por que você fez isso? Diga, foi por causa da porcaria na sua cabeça”, ele dizia entre risos que não sabia de que. Tentei explicar que não entendia e que estava com medo.

“Vamos para o porto”.

“Mas, Alex, o porto é do outro lado…”

E ele pulou em cima do volante, o carro passou pelo canteiro queimando borracha até a outra pista. “Acelera”, ordenou apertando o cano da pistola no meu curativo, que sangrava. Eu sentia o sangue em minha boca e o gosto me acompanhou até o porto.

O porto era perfeito pra minha execução. Desliguei o carro e levantei os braços.

“Sabe de uma coisa? Depois de tudo eu admirei. O vermelho nos lençóis era lindo. Quando tudo era lindo eu fugi por sua causa. Por sua causa perdi a beleza e por você verei de novo”.

Ele me tirou do carro e levou pela névoa até a ponta do píer. A fumaça me lembrava o policial enquanto eu me aprontava para morrer. Uma ponta de cigarro caiu ao nosso lado.

“Achou que ninguém ia ver isso? Eu te achei”, e o policial acendia mais um cigarro no escuro.

Alex segurou minha cabeça, arma ainda no meu ferimento. A arma do policial estava apontada para Alex.

“Você sabia quem era o homem que você matou? Quem você esquartejou?”, o policial gritava enquanto atirava múltiplas vezes. As balas atravessaram Alex, que me largou. “Meu filho”, disse ele enquanto chegava e executava. Ele no fim sorriu ao ver o resultado. Se admirava como Alex disse.

“Foi vingança?”, perguntei.

“Honra”.

“Mas seu filho não vai voltar…”

Ele atirou na lâmpada que dava uma luz teatral para essa tragédia.

Um som cortou o ar e no dia seguinte, sobre meu corpo um jornal dizia de nossos assassinatos e do policial que enlouqueceu e se atirou do porto com uma viatura.

ATO 2

Computadores, cinemas, robôs e o sentido da vida

Amores, desamores e nenhum pôr do sol

Nuvens negras tristes

Choram sobre os errantes

perdidos e famintos

isole e ignore o eu

ventos frios tristes

choram sobre os errantes

simples vermes ou 

reflexos do que sou

vivo ou tento anormal

o sol ausente de risos tristes

chora sobre os errantes

na falta de luz, ferida com pus

dor sua, dor nua

na minha vergonha, solidão

minha busca infundada

minha lição aprendida

Não houve volta da ida

na cinza cidade

nossa tragada de carbono

automóveis imóveis

pedras invencíveis

folha caída

meus brônquios suicidas

lojas, esgotos

novos garotos

novos ideais

novos normais

velhos sonhos sem banhos

regadores furados

arlequins mal-amados

lágrimas reversas

palavras não impressas

amores não revelados 

em fotos queimadas

queimadas as flores

em cinzas, a prova

3 anjos voando

1 verme rastejando

um beijo faria 

a luz ressurgir

a lágrima morrer

a dor não doer

a cidade não rir

enquanto anda se cortando

guerra em mim

não faz assim

aos poucos me destrói

um barco, um só

um porto, um nó

alma perdida

os postes laranjas tristes

olham fracos e curvos

sobre os errantes

choros das nuvens

dores dos homens

medo marinho

lua riu de mim

minha mente assim

estrelas distantes

no mundo de perversão

lar de rua

minha rua

onde todo dia

não vi o sol se pôr

Mentiras ou verdades

uma mentira é verdade mal contada

excluído ou mal incluído

falsa promessa ou promessa mal elaborada

todo mal um dia faz bem

acostumamos com dor

deixe de estar triste

desisto ou luto

ando ou paro

tento mudar ou reclamo

sou ou deixo

sigo meus gostos ou finjo o seu

Informe, Infinito

Ela caminhava silenciosamente pela chuva. O céu cinza era a moldura ideal em minha mente. Era da minha idade mas parecia completa. E lá vai ela, silenciosamente pela chuva. Diz que se chama Anjo. Poderia ser qualquer coisa, seria ela. 

Caminhava silenciosamente como anjo modesto. Quando me olhava ao falar, era confortador. Amava ver seus cabelos presos. E lá vai ela.

Abraçava silenciosamente na chuva. Me perdia nos braços dela. Quando disse o que sentia, silenciosamente se afastou, caminhando calmamente pela chuva.

A Estátua

Nada, inexiste. No caso, meu ódio. Chagas não sararam mas não muda nada.

Nada, inexiste. No caso, minha mágoa oculta. Lágrimas secaram mas não muda nada.

Nada, inexiste. No caso, amor. Faz de mim bobo e abandona mas não muda nada.

Nada, inexiste. No caso, eu mesmo. Paralisado para sempre numa cópia sua, meu maior amor. Meus olhos são seus, meus lábios seus, minha voz inexistente é a sua e meu coração é de pedra mas não muda nada.

Porém, a cidade

Em um lapso de tempo a cidade mudou. E eterno cinza enlutado se tornou esperançosas e amorosas cores, e se iluminou. E tudo girava e rodopiava e subia e descia e pulava e deslizava. Era mágico. Era falso.

O espaço se estreitou, o contato na vida tão anti-social era um horror. E brigas e desentendimentos e cobiça e stress. Era cruel. Era real. Era alegria em pacote. Felicidade em embrulhos. Natal por alguns trocados.

E os trocados se foram e os pacotes abertos e os embrulhos rasgados. E não havia lá nem alegria, nem felicidade, nem natal. Ficou o esquecido miserável enlutado em sua existência cinza vendo a cidade perder suas cores.

E num lapso de tempo a cidade apagou.

Porém, o cão

Inconveniente, medroso. Era o cão. Bobo, não sabia de sua força. Corria, rolava, latia e escondia seu medo com violência. Ciumento, queria só pra ele. Aprendeu do pior jeito. Agora tem que encontrar força para se reinventar. O novo dono já vai chegar.

Porém, o andróide

A escuridão acabou. Os circuitos, queimados por estrelas acima do normal pelas quais se apaixonou. O astro queimou sua mente computadorizada, seu coração de lata. Rumou até o centro da estrela, vendo seus pedaços mortos e frios distribuídos aos confins do universo. De frios metais pelo universo, uma mão mecânica salvou pedaços para incluir em si.

Porém, a chuva

Ela me esperou sair com paciência. E como em alegria histérica se deu em prantos. Molhou e se jogou sobre mim. Mas passei. Jogou sua fúria sobre a cidade  mas era hora de sair. E me deparei com ela para uma última dança. Era minha despedida.

Inutilidade

Vivemos em um mundo de falsos paradoxos

criado por falsos líderes que acham que têm poder

Poder sobre falsos paradoxos

Todo dia a mesma conspiração

Um dia a menos, um dia a mais

O Sol permanece quando estamos no horizonte.

Novos passos rumo ao ano passado

Vem andar, irmão

Isso vai te ajudar a pensar

Olha as árvores

Sobe aí

Você tem que perdoar eles

Ele perdoou nossas ofensas

Tente sorrir

Tente aproximar alguém

Consegue ouvir o mar ainda?

Você pensa demais no amanhã 

e já fez isso ontem

Olhe a dança de luzes

Faz o que eu digo

Desce aqui

A vida regride

a cidade fica mais cinza

O Adeus

Palavras estranhas adentram a mente

onde quer que ponha

Excluindo somente

Dói a solidão

facada pelas costas

Medidas impostas

Alma reluzente

Deixou o parado transeunte

deixou rimas batidas

Viram como ele saiu?

Rosto se apagou

Apaga a linha torta

Prefere acabar a tensão

ou deixar como está?

O Fim

Chegou quieto e abriu a porta

tirou seus sapatos cansados

despiu-se dos óculos

ficou cego na sala morta

talvez já tivessem avisado

ela não seria dele mesmo

talvez se conformar

talvez se desesperar

correu até a cozinha

a gazeta dos talheres

a maior das facas

pensou no pior

nem tudo valia tanto

secou lágrimas

colocou óculos

ligou a TV

ATO 3

Abraços, beijos, artes e um banho de mar

Os misteriosos detalhes de trapos e botas

Deus juntou suas mais vivas tintas e um ou outro pincel e pintou o universo. Talvez nem ele soubesse que pintasse tão bem. Pintou pontos de luz, e pontos coloridos, que resolveu então chamar de planetas e satélites. Achava que esses nomes tinham uma boa sonoridade.

E os lindos pontos de luz iluminavam majestosamente os dançarinos planetas e satélites que em movimentos coreografados geravam um belíssimo espetáculo: a Dança dos Tempos. 

E Deus olhava tudo, atentamente da platéia, que na dança havia várias reviravoltas, e os dançarinos às vezes perdiam o compasso ou esqueciam o passo. E se perdiam e se encontravam. Aí surgiu o amor e tudo voltou a ter sentido. O amor era a alma de tudo, a alma do que é eterno e só enquanto dure, nos pequenos, mas misteriosos detalhes entre juntar os trapinhos e bater as botas. 

Em toda sua carreira aquele foi o texto que mais a tocou. Ela, artista conceituada, vê agora todos seus sessenta e tantos anos estampados de maneira indireta naquela parede de um Centro Cultural. Ela se lembrou dos seus tempos de jovem bailarina e calor da paixão pela dança e por um belo bailarino. A chama do ballet nunca se apagou nela. A paixão pelo jovem bailarino sumiu mais ou menos um ano depois do casamento. Nunca tiveram filhos, pois filhos são fruto do amor. E ele nunca existiu, foi só uma paixão. Ela sempre foi sozinha. Ela sempre se virou. Ela sempre se fechou. Ela sempre foi um mistério.

Sem mistérios, ele acordou ansioso. Mas não podia parecer assim, afinal ele já era um artista renomado. Tomou um banho calmo e se arrumou depressa. Preparou seu café com cuidado e carinho, mas o devorou em instantes. Respirou fundo e sentiu que algo bom estava por vir. Ele andou até a banca de jornal, comprou o que achou que teria a melhor matéria possível. Sentou-se num café e pediu um cappuccino. Abriu o jornal e o ar vitorioso saiu dos pulmões e tomou sua face: sua mais nova exposição, que acabara de ser lançada, estava rasgada em elogios por um dos críticos, que não se vê agradado por qualquer coisa.

Ela acordou com aquele texto na cabeça. Levantou-se devagar, andou pelo apartamento vazio. Fuçou em um velho armário. Pegou um velho álbum de fotografias. Colocou-o na mesa. E o folheava enquanto comia qualquer coisa. Viu fotos do seu casamento, viu o quanto aquilo foi falso. Viu recortes de jornais do início da carreira e uma foto com aquela que ela achava uma nova promessa. É o jovem indo antes do velho. É o velho ficando sozinho. Ela olhou ao redor e se viu sozinha. Vestiu um vestido preto, pôs óculos escuros e foi à missa.

Ele nem ligava para a chuva. Andava feliz pelas ruas escolhendo onde almoçar. Encontrou um ou outro amigo que elogiava a exposição. Sua autoestima estava no auge. Ele estava no auge. Auge de seus 75 anos. Seu coração explodia em alegria. Ele já tinha em mente que aquelas fotografias, esculturas, instalações e quadros marcariam sua última exposição. No auge. Seu coração feliz o guiava até o Centro Cultural, onde faria uma coletiva de imprensa e divulgaria sua aposentadoria. Mas ele mudou de ideia. E ambos, ele e seu coração, pararam.

Ela não sossegou durante toda a cerimônia. Deu suas condolências ao fim e saiu o mais rápido que pode. Algo estava angustiando-a por dentro. Pegou um ônibus. Seus pés se moviam majestosamente, criando uma nova coreografia, sem que ela notasse enquanto estava sentada olhando pela janela. Planejava ir até o Centro Cultural e trabalhar algo em cima daquele pequeno texto. Colocou os óculos escuros, Ela queria se distanciar do mundo e pensar em algo. Fechou os olhos, e mesmo assim não conseguia. Só desligou dali quando aquele caminhão acertou o ônibus em cheio. Tudo estava embaçado para ele. Se esforçou para ver e admirou o soro que estava sendo mandado para sua veia. Quando sua mente voltou a funcionar e viu o leito, sentiu que não era mais ele. Sentiu como se não fosse mais nada. Viu a outra cama e sem saber pra quem falava, se aposentou. Não houve resposta.

Ela se lembra de uma dor horrível e de achar que nunca mais lembraria de nada.

Levantou as cobertas e viu um curativo gigantesco ali na sua barriga. Passou as mãos sobre o rosto, procurava ver se existia algum motivo para sua falta de lembranças recentes que não fosse o fato de, pelo visto, ter ficado inconsciente.

“Você está bem” alguém disse, sentado na cama do lado oposto do quarto. “Pelo menos, bem melhor de quando você chegou, 2 dias atrás.”

Ele tentou sorrir do jeito mais sincero que pode. Estava espantado. Era para ela estar morta como muitos que ele viu passarem pela porta, no corredor. Ele esteve quase sempre consciente.

Ela respirou calmamente e tentou se concentrar. Isso sempre foi o que ela fez. Para se tornar uma coreógrafa consagrada, ela se concentrou muito. Movimentos lentos e suaves. Calma. Ela fechou os olhos. Lembrou de sua primeira apresentação. Foi um fracasso. Se contaram 20 pessoas foi porque contaram com o elenco. Lembrou também de seu olhar pela fresta da cortina do Teatro Municipal lotado 15 anos atrás e no seu medo de iniciante na sua despedida. Respirou, se acalmou. Perturbava suas alunas para que elas aprendessem a respirar e se acalmar. Não sentia as pernas. Expirou. Ele continuava sentado ali com aquele sorriso medonho. Observando. 

Ele se apresentou e aquele nome bateu na cabeça dela como um estalo. Ele só disse o nome e ela arregalou os olhos. Lembrou dos olhos arregalados da mãe dele ao ver que começara a pintar precocemente nas paredes da sala. Se sentira estranho, como se todos olhassem assim para ele.

Algo estalava na mente dela como uma velha lata de lembranças que nunca ninguém soube. Ela sempre guardou escondido. E esqueceu. Ele a fez lembrar dela mesma. E ele nem sabia. Ela resolveu abrir a lata e soltar estalos. Ela disse sobre o texto. Sobre a exposição e tudo que ela disse o tocou. Afinal, ela foi a primeira a dizer isso. Sempre ouvira falar que a maior riqueza para um artista é o depoimento emocionado e verdadeiro. 

Ele nunca tinha ouvido um que fosse os dois ao mesmo tempo. Ele a observava com estrelas nos olhos e infinitas explosões em sua mente. Ela o viu vindo com lágrimas sinceras na direção dela. Algumas vezes alguém vinha chorando para ela, mas não tão sinceramente. Ela sentiu braços fortes a abraçando. 

Ele por alguns momentos voltou a ser jovem. Seu coração batia forte. Suava Frio. Sentiu em seu coração que era alguém especial. Beijou a testa dela. As rugas e expressões da velhice se desfizeram por uma eternidade de um último romance inocente sem pretensões de ser amor.

Ela sentiu um calafrio na espinha e ficou com ele guardado. Na sua última contradança, ela o abraçou. Seus passos eram firmes e precisos. Sem palavras. O último passo de uma dança. Uma dança misteriosa. Uma dança esquecida. Um abraço apertado e um suspiro. Assim surgiu o amor e tudo voltou a ter sentido.

A mão

Aquelas mãos não negam. Eles estão destinados um ao outro.

Parece estranho falar isso sobre duas crianças de 6 anos. Mas eles estão. Anos após todas essas brigas o sentimento vai surgir. Todas essas brincadeiras perderão a inocência.

Ele trará flores e não insetos, e a acariciará ao invés de puxar os cabelos. Ela o beijará e não mostrará a língua. Ela dirá coisas arrepiantes ao ouvido dele e não gritará aos quatro ventos xingamentos sobre ele.

Essas mãos ficarão suadas e o coração enlouquecido ao ver um ao outro. Os olhares se encontrarão um dia. Hoje, ficam as mãos dadas e os sorrisos compartilhados em um inocente balanço.

Um pouco mais bossa

Prepara o litoral

prepara a chuva

pegue suas folha

vamos andar

Um pouco mais samba

pegue o trem

suba o morro

se apaixone de novo

entre cartolas e tamborins

Um pouco mais rock

faça uma pequena contagem

uma virada rápida

um ou outro acorde

pare de sonhar

ATO 4

Stress, paranóias, sangue e algo mais etílico

SAC

Todo dia era o mesmo desde que chegou à cidade. Às 6, saía da cama. Às 7, de casa. Às 8, chega no trabalho e 10 horas depois ia embora. 20h, chega em casa para às 22, sem um minuto a mais ou a menos, ir dormir.

Iam-se assim os dias, meses, até  a rotina sofrer o baque do maldoso feriado.

Às 11 acordou. Às 13 tirou o pijama, colocou “roupa de ficar em casa”. Às 16, bateu a fome. Foi até a cozinha que era do tamanho de um banheiro e abriu sua despensa com cuidado. As dobradiças estavam pedindo aposentadoria ou estavam em greve. Dentro habitavam latas e latas de conserva. Sentia-se assim, esmagado naquela lata da vida, com seu vazio preenchido por algo que não sabia dizer.

Ele, homem-lata pegou uma. Milho.

Ao abrir a lata, se sentiu sozinho. Não era produto que precisava de cuidados como pimentas ou palmitos, só era ele. Queria abrir sua conserva. Na lata viu um número, ligou. Do outro lado, uma voz apática de palmito em conserva responde.

“Serviço de atendimento ao consumidor. Atendente Silvane falando. Boa tarde.”

“Eu… eu sou refém”

“Senhor? Não sei se compreendo. Como posso ajudar?”

“Eu sou refém. Refém de mim. Refém de vocês”.

“Calma, senhor. Acho que entendi. Estou te encaminhando para o setor de reclamações e…”

“Não, por favor. Você…”

“Senhor, eu realmente acho que não consigo te ajudar e eu só trabalho aqui…”

“Só fale comigo.”

Após um momento de silêncio, abridores ecoaram.

“Bem. Me chamo Silvane. 21 anos. Sou mãe de dois meninos, gêmeos. O pai sumiu ao saber da gravidez. Não terminei o segundo grau e trabalho aqui enquanto os meninos ficam com minha mãe. Minha vida é esse trabalho. Me sinto cada dia menos mulher. Acho que também me sinto meio refém dessa…”

“Eu te amo e quero…”

“Que? Não! Agradecemos sua ligação e dê sua nota para o atendimento de após o sinal” e ela se apressou para desligar.

Ele ficou minutos com o telefone na mão. Às 21h o arremessou longe, seguido das latas da despensa. Às 22h dormiu.

Às 6, saiu da cama. Às 7, de casa. Às 8, chegou no trabalho e 10 horas depois ia embora, passando algumas vezes por uma desconhecida que conheceu por telefone sem saber. Às 20h, chegou em casa, arrumou as latas jogadas e deixou tudo pronto para às 22, sem um minuto a mais ou a menos, ele dormir e sonhar com o breve instante que conheceu alguém.

Vida Longa à violência

Acordou feliz por estar vivo. Levantou-se em silêncio, tomou um banho gelado e o pesadelo não passou. Vestiu seu uniforme. Beijou a família como se fosse a última vez. Chamou a esposa no canto, disse que a amava como quem se despede e foi embora.

Corria pela avenida quando viu as primeiras balas. Acelerou se abaixando no carro. Elas cortavam os céus e explodiam o chão. O soldado pegou sua arma, lembrou que acabou. Adentrou a cidade, o quartel-general e não tinha mais ninguém.

Os prédios explodiam, rindo de seus destinos. Pessoas dançavam sem ligar para os mortos e explosões no céus. Ele desceu do carro, recarregou sua arma e apontou para um engravatado que tanto saúda a violência.

O Palhaço

Maquiado acorda

Mal pode, mal come

Derruba a porta

Fingindo rir é homem 

Sorrisos amarelos

Para quem quer rir

Calamidades, flagelos

Agradeceu, sem reagir

Solitário, otário

Buzina o vento

Sem adversário

Serpentinas de acabamento

A dor moral

Toma mentes

Veia escultural

Números displicentes 

Palhaço, sempre palhaço

Político peito de aço

Maquiado acorda

Bem bebe, mal come

Grita à horda

Sendo assim, é homem

Sorriso amarelo

Mal humor vigente

Nada belo

Solidão regente

Compatriota idiota

Aprende ser alguém

Outra anedota

Por quê? Porém 

Tirania familiar

Bebe fuma

Grita, bate, sem ar

Mais alguma?

Palhaço, sempre palhaço

Família de algum pedaço.

Château de mim

Tudo parecia estranho naquele dia. Acordei atrasada e tudo parecia indicar para não sair de casa, da menstruação ao ônibus que não chegava.

O trabalho era uma pequena dose de veneno que tomava todo dia mas isso se somou ao tiro de uma arma fria que atravessou meu seio esquerdo, dilacerou parte do miocárdio, minhas crenças e meu futuro. O abalo dos meus olhos foi selado e envelopado pelas lágrimas vermelhas de meu peito.

Quis ser cega e não ver.

Corria alucinada entre comendadores de dor. As luzes corriam, pessoas reunidas e tudo sumiu. 

Tentei ficar de pé e estava nua, cansada e cega como queria. Toquei no meu peito e não havia lágrima ou ferida. Quando meus olhos voltaram a ver, estava arrastada por uma onda de sangue correndo por uma canaleta. Nadando e procurando uma saída, me segurei numa hemácia.

A canaleta me levou até uma estação de metrô destruída. Lá esperavam velhas senhoras gordas armadas com fuzis e bombas. Elas me encaravam passando em minha hemácia enquanto pedia ajuda e elas só esperavam.

A onda de sangue me levou até um hall sem portas ou janelas, ventava muito e não entendia de onde nem de onde tinha vindo. Com o vento, vinha lixo que caía pelo chão e era como um aterro sanitário habitado por porcos bípedes com a voz de meu chefe. O hall ia aos poucos se enchendo de sangue enquanto os porcos transformavam o lixo em escritórios até se afogarem.

Não conseguia aguentar mais e larguei a hemácia. Fui afundando no sangue até chegar na minha cama. Meu quarto era envolto em sangue e memórias escorrendo pelas paredes, pelas minhas pernas. Tudo parecia vazio naquela cama, naquela mansão abandonada.

Ali no meio de tudo ainda pensava nele. E nela. Como ela é mais jovem, como tem mais corpo. Corpo que sangrava como aquela sala. 

Por um momentos, os rios correram nas direções contrárias, meu corpo era uma estrela virando buraco negro. Vi sombras familiares que giravam ao meu redor. O tempo parou e o infinito viu meu amor morrer.

Do Jamais para o Nunca

Ele tinha tudo que se pode ter. Uma casa bonita, um carro bonito, uma esposa bonita. Um graduado cargo numa graduada empresa. Dinheiro. Achava ter tudo. Um dia seu cargo foi para alguém mais novo e andava pelo centro com seu escritório em uma caixa. Pensava em como falar pra mulher. Pensava que teria que se mudar. Pensava em vender o carro.

Como os amigos reagiriam? Eles ajudariam ou se afastariam? Seria uma vergonha pra eles? Era um fantasma pelas ruas em uma última caminhada. Chegou perto das docas, atirou o celular e depois tudo que tinha nas caixas. Jogou sua maleta com acabamento importado. Jogou o paletó, o nó de sua gravata. Fechava os olhos e pensava em ser o próximo.

“Moço, seu casaco caiu”, disse uma menina ao seu lado. Tinha uns seis anos e visivelmente morava ali.

“Sai daqui. Você não vai querer ver isso”.

“Eu queria na verdade saber se posso pegar alguma dessas suas coisas que você não quer mais”.

Ele olhou pra menina, que parecia caber na palma de sua mão.

“Aqui de noite faz frio”, completou.

Ele não disse nada. Continuou seu olhar pro fundo.

“Já que você vai lá, você pega o casaco pra mim?”, ela insistiu.

Irritado, ele pega sua carteira e dá pra menina.

“Toma, pega dinheiro, cartão e faz o que tu quiser”.

A menina estava atônita.

“Moço, eu só quero aquele casaco. Fica com o dinheiro. Você vá precisar dele pra comprar um novo…”

“Menina, não vê o que eu quero fazer?”

“Sim, mas se você quer se matar mesmo eu indico pular lá do outro lado.”

O homem não entendeu.

“Essa época do ano, os crocodilos ficam do lado de lá. É onde aparecem os piratas descuidados para arrancar um braço ou uma perna. Por isso, eles usam pernas de pau ou ganchos”.

Ele riu da imaginação da menina. Depois pensou o que poderia causar isso.

“É real. É a terra do nunca”, disse a menina.

“Tá bom, Sininho. Já entendi que você conhece a história do Peter Pan. Mas por favor, vá embora”.

“Você não é o primeiro e nem será o último a fazer isso. Mas saiba que grande assim e agindo como criança, sempre será Peter. Isso é bom. Vocês grandes tem crianças dormindo profundamente dentro de vocês, quase morrendo”.

“Você está passando dos limites!”

“Olhe, você sabe que é verdade”.

Peter abaixou sua cabeça e ouviu a voz da fada Sininho.

“Peter iria confrontar os capitães Ganchos…”.

“Menina, onde é essa Terra do Nunca?”

“Você nunca saiu dela”.

Antes que ele pudesse dizer algo, ela o arrastava de volta pra cidade. Ele via os crocodilos saltando da água. Meninos perdidos se multiplicavam ao redor, nos sinais, nos carros, vendendo balas, comprando balas, dirigindo ônibus ou fazendo malabares em frente a eles. 

Subiu as escadas do escritório voando, com uma espada em suas mãos. O mastro de Gancho que havia em seu escritório antigo balançavam quando ele voou vestido de pesadelo no pescoço do Capitão Gancho. Aos gritos, outros piratas vinham. Ele continuava a estocar e perfurar um a um. 

Uma grande onda veio e ele pulou do barco pro mar. 

A polícia chegou para ver corpos mutilados, poças de sangue, um homem decapitado. Todos mortos por um homem que os sobreviventes nunca tinham visto antes.

As coisas estavam estranhas quando Peter acordou. Estava na praia. Sininho estava ao seu lado.

“Você está bem?”, ela perguntou.

“Acho que sim. Leve”.

“Falta pouco para você voltar a voar”.

Ele ergueu seus olhos e viu sua casa, que era um grande porto pirata. Ficou perto esperando movimento. Quando o navio surgiu, abrindo a porta do estacionamento, ele saltou sobre e cravou sua espada no coração de Gancho, passando pelo vidro. Seus braços ensanguentados viram o carro perder controle e se chocar contra um muro. Seu rosto sangrava quando notou que tinha matado uma Wendy, que perguntava “Por que? O que eu fiz? Eu sempre estive com você”.

Sininho ria.

Peter foi em direção dela, com raiva. Seu rosto ainda sangrava o sangue da amada quando nada atingia Sininho, que rindo, desapareceu no ar. 

Desesperado, tirou o corpo da esposa do carro, quebrou o resto do vidro e acelerou sem destino. Piratas seguiam e atiravam no carro, crocodilos o cercavam.

Aos poucos, tentava se cercar de pensamentos bons. E o carro começou a levantar do chão. Num voo, único, até o fundo do cais. Quando o carro bate na água, o homem acorda assustado. A noite ainda é densa, a mulher dorme, tudo está bem. Ele se levanta, vai até a sacada, quer respirar. Ele expira fundo, de olhos fechados. Ao abrir, uma menina de seis anos está ao seu lado com uma espada ensanguentada e um casaco molhado.